Pedro Ribeiro – Eleições 2014: a força das corporações e os movimentos sociais

O desmoronamento do socialismo soviético, em 1990, não foi apenas uma vitória econômica e política das grandes corporações transnacionais mas também uma vitória ideológica: derrotada a alternativa socialista esboçada pela revolução russa em 1917, o pensamento dominante proclamou ser o capitalismo a meta enfim atingida pela história humana. A crise financeira de 2008 poderia ter abalado seu poder, mas o socorro público aos bancos privados evitou sua falência e acabou por inverter a situação: eles saíram da crise na condição de credores dos governos. Passada a maré baixa, os milionários e bilionários do mundo estão hoje mais ricos do que antes de 2008. Este é o resultado da globalização neoliberal sustentada pelo mercado que, sem as restrições legais da regulamentação estatal, sempre favorece os mais fortes – as empresas capazes de operar em qualquer parte do mundo. Os governos Collor e FHC abriram o Brasil para essa globalização e os governos Lula e Dilma a consolidaram, contrabalançando seus excessos por meio de políticas sociais favoráveis aos setores de menor poder aquisitivo.

Contra o poderio das grandes corporações levantam-se os movimentos sociais, que desde o ano 2000 proclamam que “outro mundo é possível”. Embora tenham força moral e sejam capazes de convocar muita gente, eles não conseguem impedir que as corporações imponham aos governos sua política. Nem mesmo quando elegem um governo popular os movimentos sociais conseguem traduzir sua crítica à dominação das corporações em políticas de contenção de seu poder. Conclusão: poucas mas enormes empresas, controladas por fundos de investimentos que aplicam o capital de pessoas protegidas por total anonimato, impõem ao Estado as políticas que beneficiem seus negócios como se fossem de interesse público. São, por exemplo, o apoio ao agronegócio e à mineração, as isenções fiscais para empresas, os empréstimos subsidiados, e principalmente o pontual pagamento de juros da dívida pública que sangra os cofres da União, dos Estados e dos Municípios.

Essa submissão dos governantes às grandes corporações tem o nome elegante de governabilidade. Dirigentes políticos que se sentem incapazes de defender o bem geral e os bens comuns quando isso contraria os interesses empresariais, justificam-se dizendo que “não podem realizar tudo que foi sonhado, mas realizam o que é possível”. É o que faz o governo Dilma: ao mesmo tempo que serve os interesses das grandes empresas, implementa políticas sociais e de redistribuição de renda que efetivamente favorecem aos setores sociais de menor poder aquisitivo. Assim fazendo, o governo concilia interesses de ambos os lados e enfraquece os partidos de oposição.

Assistimos agora os primeiros movimentos do processo eleitoral que em 2014 definirá o cenário político para os próximos anos na Presidência da República, nos governos estaduais, no Congresso e nas Assembleias legislativas. Essa definição será a resultante das diversas forças em confronto. Nesse jogo de forças há espaço também para conquistas sociais, pois as grandes empresas têm o poder econômico e conseguem impor seus interesses ao governo, mas lhes falta a força eleitoral que está nas mãos de cem milhões de cidadãos e cidadãs. Aí reside o poder dos movimentos sociais: sua capacidade de atingir “corações e mentes”. Essa capacidade de mobilizar pessoas por meio de ideias e de exemplos práticos transforma-se em poder político na medida em que se multiplicam os grupos de pressão em favor da concretização de seus projetos. O período pré-eleitoral que estamos vivendo é tempo muito favorável a essa mobilização de pessoas que, ao tomarem consciência de seus direitos, os inscrevam no programa de governo ou de mandato de seus candidatos ou candidatas. Os encontros e debates em torno à temática da 5ª Semana Social Brasileira são excelentes oportunidades para esse trabalho de conscientização e de mobilização política.

Não se trata de entrar no jogo imoral das barganhas de favores para receber benefícios pontuais, mas sim de aproveitar o momento eleitoral para mobilizar a sociedade em defesa de seus direitos e traduzir essa mobilização social em projetos políticos viáveis. É preciso ter presente que, apesar de todos os defeitos no atual processo eleitoral, ele é um dos raros momentos em que os movimentos sociais podem ter mais força do que as grandes corporações. Saber ler os sinais dos tempos e aproveitar as oportunidades em aberto é o grande desafio para todas as pessoas que hoje lutam por Justiça, Paz, Liberdade e Equilíbrio ecológico em escala planetária

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