Páscoa, raiz da espiritualidade político-libertadora

Marcelo Barros e
Pedro A. Ribeiro de Oliveira

 

“Estejam sempre preparados/as para responder com mansidão e respeito a qualquer um que lhes pedir contas da esperança que há em vocês” (1 Pd 3, 15).

 

Desde 50 anos até agora, na América Latina, as comunidades cristãs de base e as pastorais sociais se apoiam no livro do Êxodo para ligar a fé com o compromisso social e político da libertação. Já no começo da década de 80 nós cantávamos:

“No Egito antigamente, no meio da escravidão,

Deus libertou o seu povo.

Hoje Ele passa de novo, gritando libertação”.

 

Hoje ainda há quem critique o CEBI e a leitura bíblica das Pastorais sociais, por se apoiarem mais no Antigo Testamento do que no Novo. Essa acusação não é justa, porque é o evangelho o centro das suas meditações e sua principal referência. No entanto, é verdade que o modo como se lê a Bíblia na caminhada de libertação é diferente da leitura clássica e comum nas Igrejas. O próprio fato de chamar a Bíblia hebraica (a Tenak) de “Antigo Testamento”, além de ofender aos irmãos judeus, é injusto com os textos que nós mesmos lemos como sendo palavra divina até hoje. Se, de fato, os textos do Pentateuco e dos profetas precisam de uma releitura crítica, todos os textos, até as palavras de Jesus no evangelho, precisam.

O Cristianismo perdeu sua força social e política ao afastar-se da tradição judaica. Muito simplificadamente, poderíamos dizer que no primeiro testamento, Deus se revela como JUSTIÇA libertadora e no Novo Testamento, sem deixar essa dimensão, ele revela sua GRAÇA para todos.

Quem está na caminhada da libertação percebe que a sua fé é essencialmente libertadora. Como diz Paulo, temos de passar de uma fé que não leva à justiça (ela existe) a uma fé que leva à justiça libertadora de Deus (Rm 1, 16). Por isso, é importante retomar o aprofundamento bíblico que não tivemos possibilidade de fazer desde os anos 80. Trata-se, hoje, de recuperar plenamente a dimensão libertadora da fé. Devemos revalorizar a intuição judaica e relê-la à luz do evangelho de Jesus não para superar seu caráter social e político, mas para revalorizá-lo para o nosso tempo. A celebração da Páscoa judaica e cristã é uma excelente oportunidade para isso.

* * *

Deus se revela como Deus na luta de libertação dos hebreus. É no meio da caminhada da libertação do povo oprimido que Deus faz sua aliança de intimidade e de compromisso de vida. Foi com um povo de escravos saindo da escravidão que Deus faz sua experiência de maior intimidade de vida. E para a fé cristã isso é paradigmático: este é o nosso Deus e assim ele quer ser encontrado.

Paulo e os autores do Novo Testamento procuraram atualizar essa fé e dizer que toda a humanidade é herdeira da promessa divina da salvação. Mas, ao explicar isso, precisaram espiritualiza-la: a terra prometida se torna o reino de Deus. A libertação que na aliança do Sinai era concreta e visava a terra e a liberdade se torna em Paulo libertação da lei, do pecado e da morte (é ressurreição). Essa forma de interpretar os textos acabou por espiritualizar o que era integral e, de certa forma, muitas vezes levou a esvaziar a dimensão propriamente político-libertadora da primeira revelação.

O eixo principal do acontecimento e do livro do Êxodo é que Deus se revela às pessoas que aceitam se colocar na aventura social e política de sair da escravidão do Egito e na caminhada da libertação como caminho da intimidade com Deus, ou seja, como forma de ter parte na aliança entre Deus e Israel. Ela começa por uma palavra considerada divina, a palavra dita a Abraão, como uma ordem: sai! No Êxodo, essa mesma palavra sai é a palavra fundamental. Não é mais a saída de um patriarca, mas de um povo e não é mais a peregrinação em busca de uma terra, mas é a luta pela libertação e a dura e terrível conquista de uma terra ocupada por outros povos. É claro que o relato do Êxodo é épico e tem pouquíssima base histórica. Mas a fé de Israel se baseia no que esses relatos têm como mensagem: tribos de hebreus leram sua história como de um êxodo conduzido por Deus da escravidão à liberdade, do exílio à terra prometida, da marginalidade à comunhão. Esse é o ponto fundamental da fé bíblica. É pena que essa mensagem tenha sido diluída a ponto de tornar-se uma mensagem moralizante e espiritualista.

Deus revela-se a Moisés. Não para ele, que estava bem, casado e tendo terra em Madiã, mas para os outros. Não teria havido Êxodo – e não haverá hoje – se quem é chamado não se colocar em caminho. É importante notar que a Bíblia junta os hebreus – membros dos grupos oprimidos e marginalizados – e Israel, o povo eleito.

Quando Deus mandou Moisés ao faraó para lhe dizer (não para pedir): “Deixa meu povo sair do Egito“, a razão era para “fazer uma festa para mim, a três dias de caminho no deserto“. Uma festa no deserto. No meio do deserto (hoje se diria na guerrilha, na clandestinidade, na resistência, mas também na persistência tantas vezes solitária de quem luta cotidianamente para fazer organização e conscientização do povo), Deus se revela e revela o mais íntimo de si, o seu nome – o seu mistério – e nos convida a viver o caminho a partir do seu amor e de sua presença, guiados/as por Ele/Ela e como sacerdotes/sacerdotisas do seu projeto divino de fazer deste mundo o seu reino de justiça e de paz.

A Bíblia ensina é que a iniciativa da saída do Egito foi de Deus e não de uma tribo de escravos que precisava de apoio. Ela se refere a um grito de sofrimento, um lamento de angústia, mas não a um pedido de libertação, talvez porque muitos escravos interiorizam a escravidão e se contentam em ter um patrão que não os maltrate. Deus quer libertar o povo oprimido, mas este prefere ter as cebolas e a segurança do Egito. (Cf. Ex 16 e Nm 11). A tradição bíblica mostra que o sujeito da libertação é Deus. O povo queria religião (fazer uma festa para Deus no deserto), mas o projeto de Deus é outro: Ele chama Israel para se libertar.

Os relatos do mar que se abriu, do maná que cai no deserto, da água que jorra da pedra não representam o cotidiano da luta e da caminhada. Seu cotidiano era a dureza, a experiência do deserto sem estradas e sem segurança, sem garantia de alimento e de água. Era principalmente a experiência de muitas derrotas no meio da luta. Na caminhada e nas lutas do povo, esses silêncios de Deus parecem ausência. A luta de libertação é inspirada e desejada por Deus, mas nem por isso é uma guerra santa. Tem de ser laical, histórica e é responsabilidade nossa e não de Deus. No próprio livro do Êxodo a ordem de Deus a Moisés e ao povo é “Não dizer (não pronunciar) o nome de Deus”: não atribuir a ele o que não se tem certeza, nem considerar que podemos sempre contar com sua intervenção poderosa. No deserto, o que mais tentou o povo foi o silêncio de Deus, a ausência de sinais de que ele estivesse presente.

Na caminhada da libertação não há certezas absolutas. Não há seguranças nem facilidades. Quando, no deserto, o povo adorou o bezerro de ouro, Deus disse a Moisés: “Deixa esse povo de lado e eu farei de ti um novo povo e te darei a liberdade”. Era Deus quem dizia isso (não era o diabo). No entanto, Moisés reagiu e disse: “De modo algum. Ou o Senhor salva esse povo ou me condena junto com ele” (Ex 32-33).

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Para alimentar a fé e a espiritualidade dos e das militantes, é preciso encontrar outra forma de celebrar e de curtir a fé. A Páscoa pode ser uma ocasião de retomar a memória da fé, a alegria da nossa esperança e assim intensificar a pertença comunitária e a comunhão.

Não faz sentido propor aos irmãos e irmãs do Movimento Fé e Política uma reconstituição da ceia judaica. No entanto, a memória da ceia pascal judaica e uma reflexão sobre a ceia de Jesus podem nos ajudar a concluir essa meditação.

“O tempo de nossa libertação” é o modo como as comunidades judaicas chamam a semana da Páscoa. Para quem crê, a celebração anual da Páscoa não é uma comemoração de acontecimentos longínquos ou míticos, mas sim uma experiência atual e comprometedora. A Páscoa nos convida a fazer parte desse evento libertador fundamental, para si mesmo/a, para o nosso povo e para toda a humanidade – e hoje acrescentamos: para a Terra, nossa casa comum.

Israel transformou uma festa da primavera em memória do acontecimento histórico que foi a saída dos hebreus do Egito, visto como uma revolução social e política: a libertação dos escravos e a conquista da terra prometida. Jesus foi a Jerusalém para celebrar a Páscoa (como qualquer judeu celebra) quando foi preso, condenado à morte e crucificado. Embora não se possa garantir que a ceia celebrada com os discípulos e discípulas fosse a ceia da Páscoa, ele deu a essa ceia caráter pascal. Ao insistir na comunhão entre os que comem e ao se dar simbolicamente no pão e no vinho, ele reforça uma nova aliança. Não para substituir a primeira (do Sinai) que é sempre atual, mas para radicalizá-la e universalizá-la.

No primeiro testamento, a ressurreição tem uma conotação social e política clara (ressurreição é uma nova insurreição – Ver Ezequiel 37). Com Jesus, a vitória sobre a morte e a manifestação de que Ele está vivo e atua junto aos seus é uma força nova e imensa no projeto da aliança que é o mesmo do Êxodo, libertar-se e se constituir como comunidade do reino.

Seria preciso que as comunidades retomassem com liberdade e criatividade a festa da Páscoa, a Vigília que Santo Agostinho chama de “mãe de todas as Vigílias da Igreja”, fazendo dela um rito do nosso compromisso de viver a fé como espiritualidade político-libertadora e recebendo dela a força necessária para prosseguir na luta. Em muitas comunidades, nessa vigília se inclui a memória de nossos mártires, a renovação não apenas do batismo que a maioria de nós recebeu quando criança, mas do compromisso que é nossa opção prioritária de fé, a nossa consagração à justiça, à paz e ao cuidado com a criação. No sertão do Nordeste, nesse momento, depois de seis anos de seca, caem as primeiras chuvas e o povo canta com Reginaldo Veloso: “O Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra a água saiu, era noite e o sol surgiu, aleluia!”.

Celebremos, então, com grande alegria, a memória da Páscoa de Jesus, fazendo dela alimento para nossa vida de Fé e de compromisso político-libertador.

 

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