Pandemia e Economia

Pandemia e Economia
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O texto publicado neste site em 17 de fevereiro anunciava a realização do encontro “A Economia de Francisco”, previsto para a próxima semana. A pandemia de coronavirus obrigou a suspenção do evento, mas tornou ainda mais importante repensar os fundamentos da teoria econômica, como pede o Papa. O sistema econômico atual, regido pelas leis do mercado, favorece o individualismo e a competição, não a solidariedade. É o quadro que hoje temos pela frente: diante da reclusão para evitar o contágio, pessoas de certo poder aquisitivo fazem estoques em casa sem considerar o risco de um desabastecimento fatal para quem só pode comprar o suficiente para cada dia. Essa lógica perversa estimula a pessoa a proteger-se a si mesma e a sua família sem considerar a necessidade de tantas outras. Ao insistir que todos formamos uma única comunidade humana, morando na grande casa comum onde tudo está interligado, Francisco interpela todas as pessoas de boa-vontade a trocar a competição pela cooperação como fundamento de uma economia voltada para a Vida, não para o lucro.

Desde 1891 a Igreja católica vem elaborando sua Doutrina Social, que nada mais é do que uma atualização dos ensinamentos de Jesus Cristo para a sociedade atual. Ao ser formulada pelo Papa Leão XIII, seu foco eram as relações entre Trabalho e Capital. O Papa João XXIII ampliou esse foco em 1963, para integrar as relações internacionais e a Paz mundial como objeto do Ensino Social da Igreja. Como mostra o Prof. Paulo Fernando Andrade, da PUC-Rio, o Papa Francisco a alçou a um novo patamar ao incluir a Terra, nossa casa comum, como outro tema essencial para a Igreja. O princípio ético da defesa da Vida – desde a concepção até seu fim natural – não se aplica apenas ao ser humano individual, mas também ao ser humano enquanto coletividade e enquanto parte da comunidade de vida que habita a Terra. Esse imperativo ético e evangélico obriga a Igreja – bispos, presbíteros, pessoas consagradas e leigas – a tomar posição em defesa da vida sempre que ela é ameaçada, sobretudo quando essa ameaça atinge pessoas em estado de vulnerabilidade social.

A pandemia de covid-19 é hoje a nova ameaça à vida humana no Planeta e isso interpela o Povo de Deus: o que fazer? Rezar pedindo a intervenção divina é importante mas não é tudo. Muito poderá ser feito em defesa da vida, além das precauções sanitárias e cuidados médicos – que são ações imediatas. Somos dotados de inteligência para prever também ações de médio e longo prazo, visando a prevenção da morte e do sofrimento decorrentes da enorme crise econômica hora iniciada. Ela já estava no horizonte. O vírus foi seu detonador. No primeiro momento, desabam as bolsas de valores e a taxa de câmbio vai às alturas. Em seguida serão tomadas as medidas políticas para a recuperação da economia, e nesse momento precisamos questionar: de qual economia se trata? Trata-se de recuperar a mesma economia de mercado, como foi feito depois da crise de 2008, ou os recursos do Estado serão mobilizados para criar as bases de uma nova economia, regida pelo princípio da solidariedade?

O Papa Francisco nos convoca a criar uma economia a serviço da vida, capaz de tomar definitivamente o lugar da “economia que mata”. É isso que pede o Ensino Social da Igreja, atualizando o Evangelho para nossos dias. Atenderemos esse pedido, ou seremos insensatos a ponto de despejar rios de dinheiro para preservar o atual sistema até que sobrevenha nova crise?

Pedro A. Ribeiro de Oliveira - Membro da Coordenação Nacional
Pedro A. Ribeiro de Oliveira – Leigo católico, nascido em 1943, é membro de Iser-Assessoria e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.