OS TEMPOS URGEM E RUGEM

OS TEMPOS URGEM E RUGEM

Selvino Heck

Os tempos ardem no mundo. Crise econômica.Crise social. Crise política. Crise ambiental. Crise cultural e de valores.Intolerância e ódio. Guerras.

Os tempos ardem na Europa do desemprego massivo dos jovens. E na Grécia, onde haverá um referendo no domingo, consultando povo e sociedade sobre suas opções para os próximos anos. Com razão, os gregos, seja os partidários do não, que defendem a posição do governo Tsipras e do partido Syriza, de enfrentamento do poder estabelecido e suas políticas neoliberais, seja os do sim, que preferem as orientações e a política do FMI, do Banco Central Europeu e da União Europeia, têm muitas dúvidas sobre o que vai acontecer, a consequência exata do seu voto. Mas a Grécia e os gregos não podem vender sua soberania nem deixar que o sofrimento do povo e dos trabalhadores siga indefinidamente engordando os lucros da banca e do mercado financeiro, o andar de baixo pagando a conta.

Os tempos ardem na América Latina. E no Brasil. A direita anda ouriçada,depois de deixar de mandar no continente onde sempre e desde sempre deu as cartas. Com o apoio da grande mídia, escolheu o tema da corrupção como melhor possibilidade de tirar a credibilidade de governos e até de derrubá-los, como fala-se no Brasil, na Venezuela, Argentina e Chile. Como se nunca tivesse havido corrupção nestas paragens, não tivessem havido privatizações altamente suspeitas e tantas outras formas de capturar o Estado em benefício próprio em séculos da história latino-americana (o que não quer dizer, por óbvio, que a corrupção, esteja onde estiver, não deva ser implacavelmente combatida e punida). Como se por estas bandas, ao longo do tempo, alguma vez tivesse havido distribuição de renda e não houvesse desigualdade econômica e social à farta, esta timidamente diminuída nas últimas décadas, quando governos de esquerda, populares e democráticos ascenderam ao poder, depois de muita luta e mobilização de movimentos sociais e de quem quer ‘um outro mundo possível’.

Da mesma forma e no mesmo instante em que os tempos ardem, os tempos urgem. A mobilização social pela continuidade da mudança e por reformas estruturais no mundo, na América Latina e no Brasil é decisiva.Como está acontecendo na Grécia, com o povo nas ruas e um referendo para discutir o amanhã.O enfrentamento político com ideias e propostas de futuro é o que decide a vida. Ninguém e nenhuma sociedade aceitam ser eternamente explorados, submetidos, escravizados. Ninguém e nenhuma sociedade vivem e sobrevivem sem utopia.

Felizmente, o papa Francisco lançou uma Encíclica – Laudato Si’, Louvado Sejas, sobre o cuidado da casa comum – sobre a crise do capitalismo e as mudanças climáticas, e propondo a ecologia integral. Um sinal de vida e luz.

O campo de esquerda e popular precisa reinventar-se. Sem encantamento, não há salvação à frente, ainda que em tempos urgentes nem sempre seja fácil enxergar o horizonte e alimentar a esperança. Nestes tempos de urgência, é preciso ouvir a voz dos jovens, estimular sua energia e sua voz rebelde. A esquerda, os movimentos populares, os que lutam pela transformação sabem que os caminhos nunca foram e nunca serão fáceis. Mas a casa comum da igualdade, da justiça, da solidariedade dá sentido à vida e ao estar no mundo,e pode ajudar a superar as crises, individuais e coletivas.

Não é hora de desespero ou desesperança. É hora de luta, de reflexão, de mobilização, de juntar mãos com mãos, olhares com olhares, sonhos com sonhos.

Selvino Heck

Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Em três de julho de dois mil e quinze

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