Orar, Arar

Orar, Arar
Foto: Aaron Burden/Unsplash

Há muitos modos de orar. Sedutora incompletude, orar é sempre insatisfação, algo além do mais íntimo de mim mesmo. Um gosto de sal arde por baixo da língua. Um gosto de Sol aquece o peito e deixa saudade, profunda saudade daquele ser que não sou. E, no entanto, somente sou sendo Aquele que não sou e se fez humano, e se torna em meu espírito o ser que sou e devo ser.

Orar é arar, sulcar o mais profundo de meus sentimentos e pensamentos, deixar que as sombras se esvaneçam para dar lugar à luz.

A oração é prenúncio e caminho de plenitude. Todos os orantes são ciganos em busca do Inacessível. Deus se encontra onde menos se espera. Vaga mundo. Está lá no mais ínfimo e no mais pleno. Aqui e agora.

Orar é tornar-se presente. Saudade é sempre ausência. Futuro, busca do que não se possui. Espera do que se sonha. Presente é ser o que se é sendo o que não se é, e sim o que se é naquele que É.

Jamais deve o orante projetar que transpira ou aspira santidade. Nem almejar galgar os píncaros das virtudes. Basta acolher o Transcendente como a terra se deixa fecundar pelas sementes.

Deus dorme à soleira da porta, como cão que vigia e aguarda. Fiel, jamais abandona a casa que o abriga.

A oração não pode ser medida pela extensão das palavras. Nem pela beleza litúrgica. Tampouco pela harmonia dos cânticos ou ausência de conflitos. Porém, quando comunitária, deve ser alegre e festiva.

Já no século IV recomendava-se que os coros infantis fossem acompanhados por instrumentos musicais, danças e guizos. Aos olhos da comunidade, coros dançantes evocavam bailados angélicos. No século III, Clemente de Alexandria descrevia, em sua Carta aos Gentios, uma cerimônia de iniciação cristã na qual havia tochas, cantos e danças de roda, “juntamente com os anjos”. Eusébio de Cesareia (+ 339) narra como os cristãos comemoraram a vitória de Constantino dançando diante de Deus: “Com danças e hinos nas cidades e no campo, eles davam a honra primeiro ao Deus do Universo… e depois ao piedoso imperador”.

Hoje, temos vergonha do corpo e dos movimentos do corpo. A racionalidade moderna transformou-nos em anjos barrocos: enormes cabeças sobre corpos disformes. Louvamos a Deus com discursos articulados. No entanto, na relação de amor entre um homem e uma mulher as palavras contam menos do que os gestos. Por que já não sabemos ser alegres na relação amorosa com Deus? Como os sisudos monges de Umberto Eco, em O Nome da Rosa, consideramos o riso um atributo demoníaco? Segundo Dante, no inferno não há esperança nem riso; no purgatório não há riso, mas resta a esperança; e no céu, a esperança já não é necessária, tudo é riso.

Felizmente, há quem ouse quebrar os limites cartesianos que nos prendem à confinada área de uma liturgia ortofônica, repetitiva, recitativa (por isso os protestantes não usam o verbo rezar, derivado de recitar, e sim orar) para alçar voo ao amplo espaço da gratuidade amorosa.

Ao deixar a prisão política, em fins de 1973, as monjas beneditinas de Belo Horizonte acolheram-me com um espetáculo de dança animado por uma noviça que viera do balé da Bahia. Elas entendiam de liturgia.

Oração é ação, inalação, respiração, conspiração, sublimação, encarnação, conversão, revolução e, sobretudo, paixão.

Oro não somente quando medito, peço, falo ou usufruo do silêncio que acarinha meu espírito. Oro não apenas no silêncio que me absorve, como vigília permanente, sono desperto, morte gestando vida. Oro, sobretudo, quando o Espírito vem em socorro de minha fraqueza, como escreveu São Paulo. “Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Romanos 8, 26).

Frei Betto, escritor
Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela/Companhia das Letras), entre outros livros.
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