O Sol, a Espera, a Chuva e o Sol

3 de outubro de 2016, segunda-feira, bate o sol forte da primavera, na semana de São Francisco e do assassinato do Che. Enquanto vou pendurando no varal a roupa que acabei de tirar da máquina de lavar, vou pensando na vida e na política, neste primeiro dia de relativa calma depois da volta de Brasília, depois de três meses de intensa campanha eleitoral, e finalmente começando a inaugurar a nova fase da vida como aposentado do INSS, na casa de mamãe Lúcia, Santa Emília, interior do interior do Rio Grande do Sul.

Lembro da mais difícil campanha da qual participei em 36 anos de PT: 1990, eleições a governador, Tarso Genro o candidato, um ano depois da derrota de Lula para Collor, depois da queda do Muro de Berlim e do fim do socialismo real.

Vieram 12 anos de neoliberalismo puro, anos difíceis, duros. As pessoas diziam que o Partido dos Trabalhadores, os movimentos sociais não sobreviveriam ao Estado mínimo, ao desemprego dos governos FHC, ao mercado absoluto, à ditadura midiática da Globo.

Sobreviveram. Sobrevivemos todas e todos. Surgiu o Fórum Social Mundial (FSM) em 2001 em Porto Alegre, unindo todas as forças democráticas e populares, a resistência e a unidade para construir alternativas no terceiro milênio, seguido pelos governos Lula e Dilma nos anos 2000.

A primeira semana de outubro de 2016 era de espera, depois da segunda pior campanha em 36 anos de PT, depois do impeachment golpista, das medidas contra os direitos do povo trabalhador em curso, as ameaças crescentes à democracia. Os manos Elma e Marino, agricultores familiares que vendem o que plantam e colhem na Feira do Produtor em Venâncio Aires, Rio Grande do Sul, há dias preparavam a terra e os canteiros, plantavam mudas, à espera da chuva anunciada e necessária. Fazia semanas que não chovia. O que estava plantado – verduras em geral, alface, couve, rabanetes, beterrabas – estava acabando ou com dificuldades de crescer. Enquanto não chovesse, era prudente não plantar. Tudo podia ser em vão, tudo podia acabar perdido.

A chuva começou mansa no final da tarde/início da noite de quarta, dia 5, estendeu-se por toda noite, enquanto finalmente o Grêmio ganhava fora de casa contra o Vitória da Bahia. Continuou sem parar até a quinta de noite, dia 6, quando o Internacional, em luta contra o rebaixamento no Brasileirão, ganhou dramaticamente do Coritiba no Beira Rio. Era uma chuva mansa, quase quieta, leve, que dava gosto de ouvir e olhar, molhando as mudas recém plantadas, as árvores, abençoando a vida. O Max, sempre atirado no sol, recolheu-se prudentemente para os galpões.

É assim na vida e na política. É preciso, muitas vezes, esperar a chuva, para voltar a plantar. Mas antes que ela chegue, é preciso aproveitar o sol da primavera, preparar os canteiros, ter mudas prontas, arar em tempo a terra, deixar tudo pronto para a chuva mansa, e plantar já enquanto ela ainda cai. Depois, é sentar na sala, ou, melhor, na varanda de casa, olhar os pingos caindo devagar na grama e nos canteiros, enquanto se toma um chimarrão e/ou uma caipirinha, aquecendo de vez o corpo, a alma, o coração.

Nem sempre, nem todo tempo é sol de primavera. Nem sempre, nem para sempre a seca continua. A intervalos, a chuva cai. O ciclo da vida segue em frente.

Hoje, 7 de outubro, véspera do assassinato do Che na Bolívia, o sol da primavera voltou a brilhar com toda força. A terra umedecida, com a força do sol, faz crescer os brotos colocados na terra durante a semana. Suas primeiras folhas verdes já se apresentam à luz do dia e ao meu olhar ansioso. Logo, logo seus frutos gostosos estarão disponíveis ao meu/nosso sabor e à minha/nossa saúde, sem venenos, apenas tocados pela mão do homem e da mulher, banhados pelas lágrimas da chuva, pelos suaves raios de sol e pelo leve calor da primavera em flor.

Nada como a vida, o tempo, a história. Na vida e na política. Na política e na vida.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em sete de outubro de dois mil de dois mil e dezesseis

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