O Pão, a Palavra e o Projeto

“A cigana leu o meudestino./ Eu sonhei!/ Bola de cristal,/Jogo de búzios, cartomante,/ E eu sempre perguntei:/ O que será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?/ Já desfolhei o malmequer, / Primeiro amor de um menino./ Como será amanhã?/ Responda quem puder./ O que irá me acontecer?/ O meu destino será/ Como Deus quiser./ Como será?”

A voz poderosa de Simone ecoa fazendo a pergunta sem resposta nesta quadra da história. O amanhã está aberto. Não se sabe se será manhã cheia de luz ou noite tenebrosa de trovões e tempestades, se os rostos acordarão sorridentes ou se a tristeza será infinita. Ninguém sabe do amanhã, nem a cigana.

“O pão e a palavra caminham juntos. Onde está o pão está a palavra. Sem pão a palavra é estéril. Sem palavra, o pão fica sem sentido. Da mesma forma, não basta ter o suficiente ou repartir. Há algo maior em jogo: a Terra Prometida, o Reino. Não adianta o povo encher o estômago, ficar feliz e satisfeito da vida, esquecendo-se que há um objetivo maior. Há um projeto ao mesmo tempo sonho, que ao mesmo tempo precisa tornar-se realidade. Desafia, pois, a prosseguir, a olhar para o futuro, quanto exige pôr os pés no chão, resolver o dia a dia, enfrentar os problemas e os adversários, não ser apenas sonhador ou utópico. O pão e a palavra são vida caminhando para um projeto coletivo, de sociedade e povo, a ser perseguido, alcançado, construído. Aí está o desafio do Fome Zero: incorporar milhões ao pão e à palavra, construindo um projeto que rompa com o velho e o passado” (Selvino Heck, Nação, Soberania, Projeto Democrático-popular e Programa Fome Zero, In ‘Educação Cidadã: novos Atores, nova Sociedade’, Caderno de Estudos 02, Setor de Mobilização Social da Presidência da República, junho/2004).

Em 2003, começou uma jornada no primeiro governo Lula, jornada que já vinha de outras longas jornadas de luta, de mobilização social, educação popular, construção de um país com democracia e dignidade para seu povo e uma Nação soberana.

“Meu propósito era introduzir no Fome Zero, que se empenha em saciar a fome de pão, uma ferramenta capaz de aplacar também, na medida do possível, a fome de beleza. E, do ponto de vista social e político, fazer com que seus beneficiários, o contingente de menor renda do Brasil, passassem do individualismo à cidadania, de alvos de políticas públicas a sujeitos, atores sociais capazes de não apenas produzir a própria renda, mas também um novo modelo de sociedade: um outro mundo possível” (In ‘Vamos lá fazer o que será’, Sistematização da atuação da Rede de Educação Cidadã (RECID), 2003/2006).

Não falta mais pão na mesa de brasileiras e brasileiros. O Brasil saiu do Mapa da Fome. A palavra da economia solidária, da agricultura familiar e camponesa, do Mais Educação, do Prouni, da educação popular em saúde, da educação ambiental, da educação em direitos humanos, do PAA, do Minha Casa, Minha Vida, das Conferências e Conselhos de participação social cresceu no meio do povo trabalhador.

Maio de 2016, semana do afastamento temporário da presidenta Dilma Rousseff através de um impeachment que é golpe, de um golpe contra ademocracia. Os dias que estamos vivendo irão para os livros de história. No futuro, alunos e estudantes vão querer saber quem estava do lado da democracia e quem apoiou o golpe. Assim como hoje se sabe, e está devidamente registrado, quem apoiou o golpe militar em 31 de março/1º de abril de 1964 e quem resistiu e lutou pela democracia.

“Estou tendo meus direitos torturados, mas não vão matar a esperança, porque eu sei que a democracia é sempre o lado certo da história. E isso quem me ensinou foi a história de meu país. Foram dezenas, centenas, milhares de pessoas que lutaram pela democracia.” Foram as palavras proféticas da presidenta Dilma na abertura da 4ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, em 10 de maio de 2016.

Os jovens e trabalhadores estão nas ruas faz tempo, gritando por reformas estruturais, aquelas mesmas não feitas nos anos 1960 e que resultaram num golpe militar em 1º de abril de 1964. Serão atrasadas mais uma vez por um impeachment que é golpe e jogadas para o incerto da história.

Permanece o desafio do projeto, da utopia.

“E vai chegando o amanhecer,/Leio a mensagem zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz, sempre feliz.”Os lutadores e as lutadoras não se entregam nem deixam de sonhar. Garantido o pão, chega a palavra com o anúncio da Boa Nova. A luta continua.

Selvino Heck Diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã Secretaria Nacional de Articulação Social Secretaria de Governo da Presidência da República Em doze de maio de dois mil e dezesseis

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