O Novo, o Presente, o Futuro

O Novo, o Presente, o Futuro
Selvino Heck Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

por Selvino Heck

“É no Semiárido que a vida pulsa. É no Semiárido que o povo resiste.”

É do Nordeste que vem o novo nesta quadra da história. Três dias passados em Campina Grande, Paraíba, com cerca de 50 educadoras e educadores populares e militantes sociais de todo Nordeste dias atrás, no XI Encontro Macrorregional da RECID (Rede de Educação Cidadã) Nordeste, confirmaram esta minha visão, que não é de hoje. O Objetivo Geral do Encontro, denso, corajoso e abrangente: “Debater sobre os modelos de desenvolvimento em disputa na sociedade e suas consequências, e perspectivas para o trabalho de base e da RECID.”

Não é do Sudeste, como em outros tempos, anos 1970/1980, tempos de ditadura, tempos sem democracia, com as greves do ABC paulista, os metalúrgicos se levantando e falando em nome de toda classe trabalhadora brasileira, o surgimento de Lula e tantas outras lideranças nacionais, e que levou a greves Brasil afora, sindicalismo combativo, Oposições Sindicais, Centrais Sindicais como a CUT, a volta da democracia.

Não é no Sul, dito ‘maravilha’, e seu Orçamento Participativo dos anos 1980/1990, a voz do povo organizado decidindo o destino do dinheiro que sai do seu bolso e as obras e programas do orçamento público, primeiro em Porto Alegre, depois no Estado do Rio Grande do Sul, depois se espalhando por centenas de municípios e pelo mundo, à frente lideranças como Olívio Dutra, Tarso Genro, Raul Pont, Miguel Rossetto e tantos outros, o que levou o Fórum Social Mundial, o sonho de ‘um outro mundo possível’, a acontecer pela primeira vez em Porto Alegre em 2001.

A hora é da liderança do povo nordestino. E não porque Lula veio do agreste pernambucano, ou porque hoje lidera as pesquisas eleitorais, embora preso injustamente, ou porque nos anos 2000 propôs o Fome e tirou o Brasil, ‘pela primeira vez na história’, do Mapa da Fome.

No debate de conjuntura do Encontro da RECID, Paulo Afonso, da ONG EQUIP, de Recife, e do CEAAL (Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe), lembrou de Canudos, Bahia, no distante 1896. Em 4 anos, Canudos tornou-se autosuficiente. Não havia fome em Canudos, tudo produzido por quem lá morava. Um Juiz (já então, ou sempre na história brasileira, o Poder Judiciário faz o jogo e serve à classe dominante), a mando das elites baianas, mandou acabar com Canudos e sua experiência vitoriosa.

A Caravana do Semiárido contra a Fome saiu de Caetés, Pernambuco, semanas atrás, percorreu o Brasil, passou em Curitiba e terminou em Brasília, com participação da RECID com o educador Emannuel, chamando a atenção do Brasil para a volta da fome, que já não existia em 1986 em Canudos, e no Nordeste nos anos 2000 e agora, 2018, está voltando ao Brasil.

Três mulheres, Joana D’Arc, do movimento feminista, Vanúbia, da CPT, e Dirlei, do MST, fizeram um painel com debate sobre trabalho de base. Estamos num momento difícil, segundo seu testemunho e análise, de crise civilizatória. Neste contexto, é preciso reaprender de novo e ter novos paradigmas de igualdade, com direitos políticos, com ações de acolhimento, na diversidade buscar identidades. Não se pode abrir mão da formação e da mística nestes tempos, mantendo um espaço plural, e a noção de territorialidade. Há uma questão de soberania em jogo, porque o Estado está sendo destruído. Ë preciso, no contexto de crise, passar da luta econômica para a luta política. O Congresso do Povo está fazendo isso, com o debate sobre um Projeto de Nação. O trabalho de base, neste contexto, precisa partir da organização das comunidades, elevando o nível de consciência, envolvendo a juventude.

Houve um momento de Incidência Política na sede da OAB de Campina Grande, com presença de candidatos de vários partidos, que assinaram um Pacto pela Vida da Juventude Negra, que contém várias propostas: Conferência da Igualdade Racial; assegurar educaç ão de qualidade; assegurar a ampliação de acesso ao mercado de trabalho para a juventude negra; promover o direito ` a comunicação; promover o acesso à cultura, esporte, lazer e tempo livre; prevenir e enfrentar a violência; fortalecer os canais de participação democrática.

Educadoras e educadoras populares falaram na urgência histórica de recuperar espírito missionário, no sentido de engajar-se nas lutas, fazer o debate e a formação política, estar disposto até mesmo, em gestos extremos e extraordinários, a fazer Greve de Fome, como acontece em Brasília, com participação de uma companheira, Rafaela Alves, do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) e da RECID Sergipe. Foi encaminhada uma Nota de Apoio, com o título ‘A RECID Nordeste está com vocês’.

Diz-se hoje no Nordeste: ‘Quando o povo se junta, o poder se espalha. A nossa comunidade tem a nossa voz.’ Os pobres do Nordeste, os pobres do Semiárido, trabalhadoras/es construíram as cisternas de placa por iniciativa própria e de suas organizações de base. Centenas delas se juntam, na ASA (Articulação do Semiárido), começaram a produzir coletiva e ecologicamente, organizam-se solidariamente, para ‘conviver com o Semiárido’, suas riquezas de todos os tipos, seu povo solidário, e não combatê-lo.

E assim surgem novas formas de produção e vida melhor para todas e todos . A fome assim começou a ser enfrentada. Nas secas mais recentes, duradouras, não houve mais mortes de crianças nem multidões nas estradas indo para o Sul. Surgem governos populares, diferentes experiências de participação e organização popular.

Constrói-se esperança no Nordeste, no Sertão, no Semiárido, no Agreste, na Caatinga, em todos os lugares, campo e cidade. Lá está o novo, o presente, o futuro nesta quadra da História. Por isso, educadoras e educadores populares, cantaram com emoção: É no Semiárido que a vida pulsa. É no Semiárido que o povo resiste.

SelvinoHeck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990). Em vinte e quatro de agosto de dois mil e dezoito
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