Nos subterrâneos da sociedade – Conversando com os netos

Nos subterrâneos da sociedade – Conversando com os netos
Luiz Alberto Gomez de Souza - Cientista Político

Reproduzimos aqui a primeira parte do artigo de um pioneiro na relação entre Fé e Política, que já na década de 1950 abriu o pensamento católico à crítica ao capitalismo. Hoje, ele mostra que precisamos prestar atenção aos sinais dos novos tempos para que nosso pensamento e nossa prática não estacionem no passado. O texto completo pode ser apreciado em http://www.ihu.unisinos.br/599707-conversando-com-os-netos

Em minhas análises políticas tenho centrado meu interesse na sociedade civil, de onde sobem demandas e se articulam apoios. Ali se encontram movimentos sociais mais ou menos organizados; além dos clássicos, temos a emergência das novas reivindicações: mulheres, negros, índios, LGBT, etc. Elas vão articular conexões particulares com partidos políticos. Estes, pelo momento, são atualmente 33 legalizados. Uma minoria tem programas definidos, um bom número são agrupamentos de aluguel, para fins eleitoreiros ou para obter vantagens no loteamento de cargos.

De repente entra uma dúvida: a isso se reduz a sociedade? Não estaremos encolhendo nossa visão, deixando de lado toda uma parte da realidade? A Roda Viva no dia 18 de maio entrevistou Felipe Neto. Primeira reação de muitos: quem será esse desconhecido e por que foi escolhido num programa que convida personagens notórios? E aos poucos chegava a palavra clara, honesta e até modesta de um jovem que tem atrás de si, em diferentes espaços virtuais, oito milhões de inscritos e mais de dez bilhões de visualizações acumuladas. Conversando com meus netos, eles me levaram a conhecer um mundo enorme dos chamados influencers digitais, que se expressam há anos por YouTube, Instagram, ou pelo Twiter. Cada vez menos aparecem no Facebook. São conhecidos comumente como blogueiros ou youtubers. Estão em contato com um número impressionante de seguidores. Seguidor não indica apoio, porém fazer acessos. Mas Felipe Neto é apenas o segundo em público. Outro, com o estranho nome de Whindersson Nunes, paraibano, tem 39,6 milhões de inscritos. Há assim um enorme número de redes virtuais, com mensagens que cobrem uma grande gama de interesses, textos satíricos (com um humor que, confesso, nem sempre consigo captar), vendas de artigos, música, alimentação, etc.

Felipe Neto foi apresentado no programa da TV Cultura como empresário (aliás bem sucedido), ator, artista, comediante, escritor e filantropo. Autor de vários livros como “O mundo segundo Felipe Neto. Verdades hilárias da vida”, “A vida por trás das câmeras”, “Acredite se puder”… Dirige-se principalmente a um público adolescente, com textos curtos e imagens significativas. Seu irmão, Lucas Neto, está orientado para um meio infantil. Não fugiu de polêmicas. Assim o guru da extrema direita, Olavo de Carvalho, o chamou, com ironia, “um adolescente promissor”. Revidou: “Na minha idade (32 anos) você dava cursos de astrologia e proclamava que a terra era o centro do universo”. Debateu também com o rígido Marco Feliciano, pastor da igreja neopentecostal Catedral do Avivamento e deputado pelo PSC.

O fato é que Felipe Neto abriu um espaço que parecia inexistente nesse meio de youtubers e blogueiros. No Roda Viva tomou uma posição clara de crítica ao governo bolsonarista. Não vestiu camisa ideológica, nem se declarou de direita, esquerda ou centro, colocando-se por fora das identidades políticas tradicionais. Honestamente confessou ter votado em Bolsonaro, como fora crítico do PT e favorável ao impeachment de Dilma. Um pensamento aberto, em revisão, que sabe não estar numa tomada de posição definitiva.

Através dele chegamos a tantos youtubers e twiters sem presença ou visibilidade no campo tradicional da sociedade política. O mapa eleitoral não cobre esse vasto campo de opções e demandas. Mas outro blogueiro recentemente, Felipe Castanhari, também um dos precursores no uso do YouTube, em seu canal Nostalgia, com treze milhões de assinantes, acaba de declarar: “Não existe isso de não discutir política. Como não vamos discutir a maior ferramenta de transformação na sociedade?” (rede UOL, 2/7/20). É interessante ver a enorme quantidade de reações a essa afirmação, desde “debater política é perda de tempo”, até “todo ato é político”. O tema político aflora nesse enorme espaço dos youtoubers, nos twiters e no Instagram.

Vamos descobrindo a presença de novas gerações com seus códigos próprios e socializações que nem sempre somos capazes de captar perfeitamente. Mas não se reduzem aos jovens; há ali membros de outras idades. E fica a pergunta no ar: um bom número de artigos, análises, propostas e denúncias políticas chegam até lá?

Num passado recente, em junho de 2013, houve um momento de trágicos desencontros. Naquela ocasião, começando por São Paulo, um público basicamente jovem se lançou às ruas a partir de uma demanda específica: o Movimento pelo Passe Livre (MPL). O governo nacional (Dilma do PT) e o paulista (Alckmin do PMDB) não deram o devido valor a esse dinamismo emergente. É verdade que Dilma, sem sucesso, tentou timidamente uma aproximação. Para uns, eram apenas manobras desestabilizadoras da oposição, para outros, reivindicações menores. Tratando-se de um movimento sem lideranças, a política tradicional não conseguia identificar dirigentes com quem dialogar. Esse dinamismo que subia nas bases populares, ainda selvagem, não foi suficientemente levado a sério pelos setores políticos no poder E então foi capturado logo adiante por dirigentes da direita neoliberal, o Movimento Brasil Livre (MBL), que surgiu meses depois (novembro de 2014), em oposição agressiva aos governos. Isso colaborou para que este último se fizesse visível no cenário da vida nacional.

Luiz Alberto Gomez de Souza – Cientista Político