Natal: mais que data comemorativa, sinal de esperança em um novo mundo

por Diác. Antônio Lisboa Leitão de Souza.

O mundo cristão, apesar de vivenciar há mais de dois mil anos a experiência do Natal, parece que ainda está longe de alcançar seu verdadeiro e mais profundo significado, qual seja, a expressão de uma profunda esperança na realização de outro mundo. Ou, melhor dizendo em outras palavras, a expressão da crença de que outro mundo é possível aqui e agora. E que nós podemos fazê-lo com o povo, na coletividade.

Sem querer negar a importância de relembrarmos o nascimento de Jesus Cristo, ao contrário, isso devemos fazer a cada dia, até porque costumamos celebrar a vida, comemorar nossos aniversários, relembrar nossas origens, comemorar cada ano a mais que vivemos – e isso nos faz sentirmos mais humanos – não podemos, todavia, nos limitar a simples lembrança, tampouco a comemoração de um fato histórico – o nascimento de Jesus Cristo. Visto apenas como fato passado, ele tende a ficar no passado, sem que isso tenha alguma relação com nossa vida, tenha alguma implicação para nosso quotidiano. Manter a celebração do Natal nestes termos, isto é, como se apenas estivéssemos lembrando do aniversário de Jesus e celebrando seu nascimento, é a mesma coisa de alimentar a inconsequente separação entre fé e vida, seguir sem entender que o Natal é muito mais que isso, é a expressão de uma firme convicção (fé) e determinação (atitude) de mudar o mundo.

Gostaria de ressaltar aqui alguns aspectos que deveriam estar implicados na celebração do Natal por parte de todos nós, cristãos e cristãs.

Primeiro, se olharmos para o fato histórico – um menino-Deus que nasceu em Belém – certamente lembraremos do contexto de seu nascimento, o que já é por si só pedagógico e enriquecedor de nossa atitude natalina. Conforme nos mostram os escritos sagrados, o contexto fala de um Jesus nascido na pobreza e na simplicidade, numa região igualmente pobre e periférica em relação às condições de poder e de desenvolvimento social e humano, sem assistência médica, sem o amparo de políticas públicas, sem conforto material, a não ser o colo e os cuidados parentais de Maria e José. Além disso, nasceu de uma mulher simples, de família pobre, da periferia, que como milhares de outras mulheres de seu tempo, trabalhava para garantir o sustento do lar e educar seus filhos. Mulher de fibra, determinada, responsável com o que assumia, corajosa ao dar um SIM e assumir todas as consequências de sua palavra, portanto, uma mulher de muita fé.

Podemos dizer, então, que as circunstâncias em que Jesus, o salvador, nasceu, contribuíram para que aquela realidade social de vida – que era a da maioria dos trabalhadores de seu tempo – ficasse para a história com um papel pedagógico, no sentido de nos ensinar de onde viria a libertação, de que contexto poderiam surgir as alternativas de mudança social, quais eram as camadas sociais de onde poderiam nascer as possibilidades de emancipação, de libertação, de mudança social, de salvação da humanidade.

Isso mesmo. Não podemos ter dúvidas sobre a mensagem de Deus para a humanidade ao ter escolhido uma mulher simples, forte, corajosa, pobre e de periferia para ser a mãe do seu filho, Jesus, aquele que salvaria o povo das condições de miséria, opressão, pobreza e injustiças em que se encontrava, colocando-se no meio dele, sendo um como ele, filho e homem do povo.

Do mesmo modo, ao ter escolhido uma região pobre, de povo simples, afastada dos centros do poder, portanto, relegada a segundo plano pelas estruturas políticas de dominação econômica vigentes, como sendo a região a partir da qual brotaria uma mensagem nova de vida, de libertação, de justiça, anunciando aos 4 cantos que outro mundo era e continua sendo possível, a mensagem fundamental do Deus criador – ou, se preferirmos, do Deus-menino que se fez homem para nos salvar – é a mensagem que menos se esperava em sua época: a de que é do meio dos pobres que a mudança histórica acontece (ou pode acontecer); que é das e nas regiões mais pobres, mais sofridas, mas injustiçadas, periféricas e menos desenvolvidas, portanto, aquelas sobre as quais os poderosos expressam seu menosprezo, sua indiferença e alimentam suas estruturas de poder e dominação, exatamente dessas regiões e povos que a libertação pode acontecer, ou melhor, de onde acontece a mudança das condições de vida social, onde ela nasce de fato.

Celebrar o Natal é, pois, se abastecer dessa consciência cristológica de que o Menino-Jesus, nascido como um de nós, trouxe uma mensagem e um ensinamento de como é possível viver a plenitude da vida; é se fortalecer na fé e na esperança de que o mundo não está perdido, mas que dependem de nós as mudanças que são necessárias.

Celebrar o Natal é acreditar na força da fé e envidar todos os esforços possíveis, a cada dia, para que as mudanças neste mundo aconteçam; é mostrar para toda a humanidade que o nascimento de Jesus valeu a pena e não foi em vão, pois aprendemos com Ele que aos pobres e pequeninos, e não aos poderosos, foi dada a graça, a força, a sabedoria e as virtudes divinas para que as mudanças em prol de um novo Reino possam acontecer.

A alegria com que celebramos o Natal precisa ser a mesma que Maria teve, ou seja, o reconhecimento de que Deus não apenas opera em nós maravilhas, mas nos dá a força, as energias e o discernimento necessário para realizarmos as transformações que o mundo exige, especialmente aquelas que promovam a emancipação dos humildes, dos pobres, dos injustiçados, dos desamparados, dos sem-teto, sem-terra, sem-trabalho e sem-pão, como diz o Papa Francisco.

Neste sentido, entendo que desejar a alguém um Feliz Natal! significa desejar que esta pessoa assimile a alegria de se colocar a serviço do próximo como Jesus fez; desejar que cada um saiba dar um SIM à causa do evangelho, projeto de Jesus para a humanidade, assim como Maria fez, e não olhar para trás. Significa, ao mesmo tempo, expressar ao outro que acreditamos na força que vem dos pobres; que não apenas nos alegramos, mas também concordamos com Jesus ao apontar a centralidade da vida e das regiões cujas pessoas vivem em condições de opressão, de injustiça, de subalternidade, de desprezo ou abandono.

Em suma, diante de uma conjuntura de desigualdades sociais, de injustiças, de preconceitos e discriminações as mais diversas, diante de uma cultura de morte em que a ostentação do poder, do ter, do egoísmo, do individualismo narcisista são as características predominantes da vida em sociedade, celebrar o Natal só tem sentido se for para negar tudo isso e expressar a esperança e a viabilidade de um outro mundo, de outro jeito de viver.

Quero afirmar com isso que não teria nem tem nenhum sentido celebrar o Natal se o entendermos como momento de troca de presentes, como uma festa anual de aprofundamento do consumo, principalmente porque cada vez mais os pobres se tornam mais empobrecidos ou rebaixados à condição de miséria, sem sequer ter o que comer ou o que vestir. Para estes, as imagens e propagandas de um ‘natal comercial’ é mais uma dentre tantas outras formas de opressão, de sofrimento interior.

Como cristãos, precisamos, pois, celebrar o Natal com a alegria e a força de nossa fé no Jesus que nasceu em Belém para lutar contra as estruturas de poder, de dominação, de opressão, de violência que marcaram o seu tempo, assim como marcam o presente. Ao mesmo tempo, é reafirmar que o projeto de vida que ele nos ensinou implica mudanças de atitudes de nossa parte. Se acreditamos nEle, acreditamos também na necessidade de mudar o mundo e imitar seus passos. E isto implica nos colocarmos ao lado do povo, dos pobres, dos homens e mulheres simples, dos mais humildes, dos trabalhadores, desempregados, doentes, carentes e desamparados pelas políticas públicas.

Desejar Feliz Natal é o mesmo que dizer ao outro: que o espírito de Jesus nasça em você ou fortaleça sua vida e lhe ajude a transformar o mundo, derrubar os poderosos, exaltar os humildes, saciar os famintos, acolher os sofredores, os migrantes, os menores, lutar por justiça social, pela vida plena e paz para todos.

É nesse sentido é que desejo Feliz Natal! Que ele nos traga a paz, como entende D. Pedro Casaldáliga, uma paz que nos torna vivos e verdadeiramente humanos.

Diác. Antônio Lisboa Leitão de Souza
Membro da coordenação do Movimento Nacional Fé e Política
Campina Grande-PB, 24.12.2018.

VEJA TAMBÉM
Esperanzar – Vozes Proféticas “Vem, vamos embora/ que esperar não é saber./ Quem sabe faz a hora,/ não espera acontecer.” Nos tempos que correm, há que ter/ser vozes proféticas. ...
O misterioso destino de cada um por Leonardo Boff. Cada um de nós tem a idade do universo que é de 13,7 bilhões de anos. Todos estávamos virtualmente juntos naquele pontozinho, me...
90 anos de Dom Pedro Casaldáliga: pobreza e libert... por Leonardo Boff Ao completar, no dia 16 de fevereiro de 2018, 90 anos queremos homenagear a Dom Pedro Casaldáliga, pastor, profeta e poeta com um...
Domingo da Ressurreição por Tereza Pompéia Cavalcanti – PUC-Rio - fonte: IHU -  Leituras: At 10,34ª.37-43;  Col 3,1-4;  Jo 20,1-9 As leituras de hoje nos surpreendem. N...