Humanizar a Humanidade

Humanizar a Humanidade
Foto: Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%A9lder_C%C3%A2mara

Tributo a uma geração de pastores e profetas, comprometidos com a causa libertadora dos pobres, inclusive em seus lemas episcopais

Ainda que não devamos idealizar, subestimar ou superestimar o valor dos símbolos, não podemos, contudo, ignorar o sentido relevante neles contido. É assim que usamos revisitar alguns lemas episcopais, relativos a uma geração de bispos profetas, cujos lemas prenunciam, em medida considerável, a ação pastoral profética por eles desenvolvida.

Vamos, nas linhas que seguem, focar especialmente na ação político pastoral de vários integrantes desta geração, marcadamente aquelas figuras de bispos que tenham desenvolvido suas funções, durante as décadas de 1960 a  1980.

Um cenário de efervescência socioeclesial na América Latina e no mundo.

O mundo, durante este período (entre as décadas de 60 e 80 do século passado) apresentava-se, seja do ponto de vista macrossocial, seja ao interno da Igreja Católica Romana, caracterizado por uma conjuntura em ebulição. Tratava-se, em verdade, de uma conjuntura sócio-eclesial relativamente atípica, na América Latina e no Brasil, sob vários aspectos. Um dos aspectos da singularidade desta conjuntura prende-se ao perfil de um número considerável de bispos, dotados de reconhecido preparo intelectual, combinado com uma profunda espiritualidade profética ao longo da história da Igreja Católica Romana e mesmo de outras Igrejas cristãs. Tal desempenho pastoral profético constitui exceção relativa a poucos períodos de sua trajetória. Outro aspecto relevante e singular do contexto das décadas entre 1960 e 1980 tem a ver com a especial efervescência política, característica da América Latina, em especial do chamado Cone Sul envolvendo países como o Brasil, Uruguai, Argentina, Chile Paraguai. Em 1964, irrompeu no Brasil o famigerado golpe civil-militar, introduzindo um tenebroso período ditatorial que se espalharia por outros países da América Latina, várias forças sociais animadas por alguns segmentos da Igreja Católica, depois, também por algumas outras Igrejas cristãs – como, por exemplo, aquelas que compõem o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), pudemos assistir ao crescente movimento de resistência, protagonizado pelas forças progressistas da Igreja Católica, em associação com parcelas de outras Igrejas cristãs, a um frutuoso tempo de resistência profética.

Ainda mais cedo, em 1962, havia-se iniciado o Concílio Vaticano II, convocado em 1º de janeiro de 1959 pelo Papa João XXIII. O objetivo daquele Concílio não era o de proclamar dogmas ou de condenar doutrinas, mas avaliar ação pastoral da Igreja Católica Romana, em relação ao mundo moderno. Tratava-se, então, do esforço de “aggiornamento”, isto é, atualizar a ação da Igreja Católica em relação ao mundo contemporâneo. Acerca deste objetivo, conseguiu-se avançar razoavelmente durante o Vaticano II, embora as mulheres não foram tratadas em igual condição de sujeitos eclesiais, ao lado dos homens. Em vários dos seus 16 documentos finais, especialmente na Constituição Pastoral intitulada “gaudium etspes” sobre a Igreja diante dos desafios do mundo contemporâneo conseguiu-se avançar até certo ponto, inclusive no documento intitulado Constituição “Lumen gentium”. Documento que contém uma admirável atualização, ou seja, no campo da centralidade do Povo de Deus, assumido como principal sujeito da organização da igreja, tomando distância do que até então, se punha como centralidade nas decisões conciliares precedentes, ou seja, a Hierarquia. Com efeito, do ponto de vista da atualização em relação à modernidade, não há como negar avanços alcançados. Por outro lado, ainda que minoritários, vários padres conciliares muito se empenharam, no sentido de que o Concílio Vaticano II pudesse avançar também quanto ao seu compromisso com a causa dos desvalidos. Este aspecto, todavia, mereceu um lugar muito aquém do esperado, ainda que em alguns documentos –  é o caso da própria “Lumen gentium”, n.8 – se dispôs de uma palavra forte em relação ao compromisso da Igreja com os empobrecidos. Mesmo assim, isto se revelou insuficiente em relação às exigências históricas da época, demandando posição mais ousada da parte da Igreja Católica.

Tal sentimento de compromisso com a causa libertadora dos pobres foi especialmente assumido por 40 padres conciliares, entre bispos, arcebispos e até cardeal, por ocasião do encontro organizado, na catacumba de Santa Domitila, nos arredores de Roma, poucos dias antes do encerramento da última sessão do Concílio Vaticano II, mais precisamente no dia 16 de novembro de 1965. Este encontro ficou conhecido como o Pacto das Catacumbas, em que seus participantes, ao celebrarem o Memorial da Ceia do Senhor, também cuidaram de firmar um compromisso, em um documento composto por 13 pontos e, no qual declararam seu compromisso de, ao retornarem às suas respectivas dioceses, nos vários continentes, abdicarem do tratamento pomposo de “Excelência”, bem como de deixarem seus palácios episcopais, indo residir mais perto do povo, em casa simples. Mais do que isto: assumiram o compromisso de passarem a viver um estilo de vida mais simples, mais próximo do povo, dos pobres.

Animados pelos compromissos firmados por ocasião do Pacto das Catacumbas, os quarenta primeiros signatários foram granjeando a adesão de centenas de outros colegas, de sorte que o Pacto logo passaria a contar com a adesão de quinhentos signatários.

Ensaiando um novo estilo de vida profético-pastoral…

Ao retornarem aos seus países, inclusive os bispos latino-americanos e brasileiros, encontraram uma atmosfera muito tensa, de uma espantosa desigualdade social, sustentada por regimes ditatoriais, aos quais parcelas significativas das populações daqueles países tratavam de opor resistência. Um clima de extrema tensão social. Inspirados no compromisso que haviam firmado, estes bispos tratam de cumprir suas promessas, deixando seus palácios e indo morar em casas modestas, com um estilo de vida mais próximo do seu povo. Vivíamos, então, na América Latina, inclusive no Brasil, um contexto de grande ebulição social, em que, ao interno e fora dos espaços eclesiais, vários grupos de resistência se organizavam. E deles, ao seu modo, também participaram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que se iam multiplicando pelas várias regiões do país e mesmo da América Latina. Às CEBs juntaram-se outras segundas experiências pastorais, tais como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Comissão Pastoral Operária (CPO), a Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP), as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular (PCIs), a Ação Católica Operária (ACO), o Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), a Pastoral dos Pescadores (PP), a Comissão de Justiça e Paz (CJP), os Centros de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), a Ação dos Cristãos no Meio Rural (ACR), o Movimento de Evangelização Rural (MER), Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), entre outras experiências eclesiais que funcionavam como uma considerável rede de resistência Popular a ditadura empresarial-militar e a defesa e promoção dos direitos humanos. Esta rede tornou-se conhecida como ” Igreja dos Pobres “ou como “Igreja na Base “.

Atuação profética da geração de bispos brasileiros e latino americanos, num contexto de opressão.

Justamente aí é que vamos observar a atuação profética destes bispos. Na verdade, constituíam uma minoria, num universo de centenas de bispos. No entanto, tratava-se de uma parcela de figuras proféticas de grande potencial de liderança, uma espiritualidade incarnada, de grande inserção no meio do povo dos pobres, com os quais compartilhavam suas inquietações e suas esperanças, e com os quais aprendiam e compartilhavam também seus ensinamentos. Parte destes bispos chegou mesmo a ocupar espaços de liderança na própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a exemplo de figuras tais como Hélder Câmara, Ivo Lorscheiter, Aloísio Lorscheider, Luciano Mendes de Almeida, Marcelo Pinto Carvalheira, sempre contando com o apoio e solidariedade de outros, como Paulo Evaristo Arns, Antônio Batista Fragoso, José Maria Pires, José Távora, Adriano Hipólito, Moacir Greche, Mauro Morelli, Waldyr Calheiros, Francisco Austregésilo de Mesquita, dentre outros.

Aquele contexto de ebulição coincidiu com a aproximação do início da segunda Conferência Episcopal Latino-Americana, que se realizaria, em Medellín, na Colômbia, em 1968. Uma Conferência, inicialmente pensada para expressar a recepção das conclusões do Concílio Vaticano II, foi tomando ares mais fortes, à medida que, de uma simples recepção aos ensinamentos do Concílio Vaticano II, passou a ser a expressão de um novo rosto de ser igreja, isto é, expressando traços de uma Igreja Latino-americana com rosto próprio, não mais seguindo como mera extensão do pensar e do sentir eurocêntricos, a que estava acostumada. Pela primeira vez, após séculos de história da Igreja Católica, na América Latina, o povo latino-americano, em especial o povo dos pobres, passou a sentir-se sujeito de sua história, cidadão protagonista também de uma ação eclesial, com traços próprios. Neste sentido, a Teologia da Libertação exerceu uma contribuição extraordinária, à medida que buscou traduzir, de modo fiel, os anseios e as esperanças do povo dos pobres, na América Latina. A este respeito, são dignas de nota duas experiências fecundas, desenvolvidas na América Latina. Uma diz respeito ao legado criativo da Comisión para el Estudio de La Historia de las Iglesias en América Latina y el Caribe (CEHILA), coordenada por figuras tais como Enrique Dussel, José Oscar Beozzo, Eduardo Hoornaert, entre outros componentes – mulheres e homens. De fato, mostrou-se uma iniciativa profundamente fecunda, sobretudo por haver protagonizado um importante plano de estudos científicos sobre a Igreja latino-americana, em seus mais distintos países. Tratava-se de uma nova leitura da história da Igreja, feita a partir da perspectiva dos pobres. Isto também se comprova pela iniciativa da coordenação da CEHILA, especialmente no Brasil, que, ao lado de dezenas de tomos sobre a história da Igreja na América Latina, feita em bases científicas, também cuidou de oferecer, em linguagem popular, inúmeros textos – em especial, folhetos de cordel. Dentre tantos textos produzidos pela CEHILA, permitimo-nos destacar o produzido por Valéria Rezende, “Não se pode servir a dois senhores”. Há de se fazer menção, ainda, à valiosa contribuição, na CEHILA popular, de várias pessoas, inclusive a de Adelaide Carvalho.

Outra iniciativa a merecer atenção, prende-se ao plano de elaboração por teólogos da Libertação, de uma coleção intitulada “Teologia e Libertação”, de modo a focar os mais distintos temas cobrindo uma produção teológica própria, de maneira a sistematizar de maneira notável as aquisições de estudos e pesquisas sobre as diferentes temáticas, indo de temas como Criação e História (Pedro Trigo), Memória do povo cristão (Eduardo Hoonaert), Opção pelos pobres (Jorge Pixley e Clodovis Boff), Trindade e Sociedade (Leonardo Boff) Antropologia Cristã (Comblin), Pneumatologia (O Espírito Santo e a libertação, Comblin), Mariologia (Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres – Ivone Gebara e Maria Clara Bingemer), Escatologia cristã (João Libânio e Maria Clara Bingemer), Ética comunitária (Enrique Dussel), Teologia da Terra (Marcelo de Barros Souza e José Caravias), Idolatria do Mercado (Hugo Assmann, Franz Hinkelammert), entre outros. Iniciativa apoiada por cerca de 120 bispos, espalhados pela América Latina, na maioria do Brasil, publicação assumida pela Editora Loyola.

Que lemas inspiraram tal ação profética?

Neste sentido, é que se pode compreender a ação profética desenvolvida por parte expressiva do episcopado latino-americano, incluindo o do Brasil, presente também em seus respectivos lemas episcopais. O título deste texto expressa um desses lemas – “humanizar a humanidade” -, escolhido por Dom Pedro Casaldáliga. De fato, a trajetória deste profeta pastor e poeta bem representa o significado do lema por ele escolhido, ao longo de sua trajetória episcopal junto ao povo dos pobres de São Félix do Araguaia. Com efeito, as mais diversas ações corajosas, guiados pelo Espírito Santo, marcadas pelo seu compromisso com a causa dos desvalidos, tem muito a ver com o lema escolhido: trata-se, de fato, de humanizar a humanidade.

Outra figura de destaque foi também a de Dom Paulo Evaristo Arns, que escolheu como lema “Ex spe in spem” (De esperança em esperança) – uma breve revisitação de sua fecunda e profética trajetória há de ser notabiliizada por esta evangélica inspiração. Sua atuação de pastor da arquidiocese de São Paulo, justamente no período mais sombrio civil-militar, constitui viva expressão desta sua dedicação à causa dos desvalidos, em especial dos presos e perseguidos  políticos do regime militar. Disto também dá testemunho o admirável trabalho de levantamento de uma enorme lista de presos políticos, do qual esteve à frente, em associação com o Reverendo pastor protestante James Wright, culminando com a publicação do clássico “Brasil: nunca mais”, trazendo um levantamento de centenas de nomes de presos brasileiros, contendo um breve histórico da denúncias de que foram vítimas, bem como das penas sofridas. O livro, porém, é apenas uma parte de milhares de páginas resultantes da mencionada pesquisa.

Durante o período acima considerado, esses pastores e profetas protagonizaram relevantes momentos, em favor da causa libertária do povo dos pobres. Já em 1970, por meio da Ação Católica Operária (ACO), em Recife, com a anuência de vários deles, apoiados em dados oficiais sobre a realidade de penúria extrema, vivida pelos nordestinos, vem a lume um Manifesto contundente de análise e de denúncia desta realidade intitulado “Nordeste, o homem proibido”.

Um ano antes, no auge da repressão da Ditadura Militar, que não tinha coragem de assassinar a figura profética de Dom Helder Câmara, não hesitava em silenciá-lo, proibindo citar seu nome nos veículos de comunicação, e, o que é pior, perseguia seus mais próximos, entre os quais, o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, torturado e assassinado, em 1969.

Dom Antônio Batista Fragoso seguindo as veredas proféticas de Dom Hélder, em suas constantes viagens de denúncia, contra os horrores da Ditadura Militar, também publicou livros denunciando estes horrores .
Mesmo tratando-se de uma minoria relativamente reduzida, no conjunto do episcopado brasileiro, estes bispos profetas fizeram a diferença, em seu tempo. Um outro atestado de seu empenho e desempenho tem a ver com a publicação de contundentes documentos, tais como “Eu ouvi os clamores do meu povo”, além de outro firmado por bispos das dioceses do Centro-Oeste, denunciando a questão fundiária e de violência, e ainda um outro sobre a questão da terra, no Brasil (fazendo questão de distinguir entre “terra de trabalho” e “terra de negócio”).

Como expressão de um modesto tributo a essa geração de bispos, ousamos tecer as seguintes estrofes. Antes, porém, listamos alguns dos seus respectivos lemas episcopais.

Dom Helder Camara: in manus tuas (Em tuas mãos)
Dom Ivo Lochaider: nova et vetera (coisas novas e velhas)
Dom Pedro Casaldáliga: humanizar la humanidad
Dom Aloisio Lorscheider: in cruces salus et vita (Na cruz estão a salvação e a vida)
Dom Antonio Batista Fragoso: Opportet Illas adducere (É preciso atrair as ovelhas desgarradas de volta ao rebanho)
Dom Moacyr Grechi: O último de todos e o servo de todos
Dom José Távora: in manibus tuis sortes meae (Omeu destino está em tuas mãos)
Dom Tomás Balduíno: Homines Capiens (Pescador de gente)
Dom Mauro Morelli: Vem, Senhor Jesus
Dom José Maria Pires: Scientiam Salutis (Em busca da ciência da salvação)
Dom Marcelo Pinta Carvalheira: Evangelizare
Dom José José Rodrigues: Evangelizare misit me (Ele me enviou a evangelizar)
Dom Adriano Mandarino Hypólito: MITTE DOMINE OPERARIOS (Envia, Senhor, operários)
Dom Samuel Ruiz: Edificar e Plantar
Dom Luiz Demétrio Valentini: Venho para servir
Dom Cláudio Hummes: OMNES VOS FRATRES (Vós todos sois irmãos)

Mais humanos tornar-nos plenamente
Eis o lema de Pedro do Araguaia
Pôr em prática o Evangelho, ele ensaia
Balduíno é chamado a pescar gente
A seguir o recado, ele assente
E Antônio Fragoso, por sua vez
Fez em vida o que o próprio Jesus fez
Foi atrás das ovelhas desgarradas
E atraindo-as de volta à caminhada
E assim combatendo iníquas leis.

Do baú deste Reino, Ivo dizia
Ir em busca do velho e do novo
Recolhamos, então, a bem do povo
O que serve pra sua alforria
E, de pronto, aos de baixo bem se alia
Já Dom Helder se entrega, confiante
Pois a força do espírito lhe garante
E José (o Rodrigues), do Juazeiro
À missão se entregando por inteiro
A serviço do Evangelho segue adiante.

Valentin por seu turno, se confessa
Do Reinado de Deus vir a serviço
Para além do seu lema, assume isso
Deste Reino se faz humilde peça
Outros mais como Humes se acresça
“Todos vós sois irmãos”, filhos do Pai
A Dom Paulo se junta, e assim vai
Promovendo a justiça e o Direito
Pelos “grandes” não sendo mais aceito
E as bênçãos do Reino assim atrai.

Alder Julio Ferreira Calado
João Pessoa, 30 de janeiro de 2020.