Fórum Social Mundial X DAVOS

Fórum Social Mundial 2018 (Divulgação)

por Selvino Heck.

Nada politicamente mais simbólico que a presença e participação do presidente golpista do Brasil no Fórum Econômico Mundial de Davos, Suíça, o Fórum dos ricos e do grande capital, dia 24 de janeiro. Dia em que Lula, o presidente mais popular da história do Brasil, será julgado em Porto Alegre, terra do primeiro Fórum Social Mundial, em 2001, Fórum dos pobres e dos trabalhadores, surgido em contraponto justamente ao Fórum de Davos. Porto Alegre do Fórum Social Mundial e do Orçamento Participativo, Porto Alegre do TRF-4 e do julgamento de Lula em segunda instância.

Em primeiro lugar, demonstra o medo, o desprezo, a falta de coragem e de vergonha na cara do presidente golpista pelo que está acontecendo no Brasil num momento histórico. Foge, está longe, distante, alheio aos acontecimentos, descomprometido, como se nada tivesse a ver com a gravidade política do que está acontecendo, e que ficará eternamente registrado na História brasileira.

Mas é pior, muito pior e bem mais grave a ausência do presidente golpista das terras brasileiras no dia 24 de janeiro de 2018!

A ida de Michel Temer, o presidente golpista, a Davos no mesmo dia em que Lula é julgado no Brasil dá um significado político definitivo ao golpe midiático-parlamentar de 2016. Mostra ao povo brasileiro e ao mundo o compromisso do presidente golpista com o grande capital, especialmente o financeiro, e o neoliberalismo. O golpe e a derrubada da presidente Dilma, legitimamente eleita, são fruto deste compromisso. O presidente golpista em Davos dia 24 de janeiro é ‘dar uma banana no povo brasileiro’, na expressão popular.

Os resultados estão aí, aos olhos de todos. O capital financeiro, através das Agências de Risco, acaba de rebaixar o Brasil, o que, por um lado, não deixa de ser um sinal do fracasso do golpe. Por outro, é sua exigência para que aconteçam as Reformas ‘salvadoras’, especialmente a da Previdência. Notícia do Correio do Povo (17.01.18) não deixa dúvida: “Temer em Davos dia 24 – Executivos das empresas vão cobrar reformas estruturais, pedindo medidas concretas e não só promessas. Temer quer atrair investidores e mostrar que a economia está se recuperando”. E artigo de Franklin Frederick no Estadão e reproduzido no blog do Luís Nassif: ‘Fórum Econômico Mundial: Temer entrega o jogo…. e a água’, às vésperas do Fórum Mundial da Água. Segundo o economista sul-coreano Há-Joon Chang, professor de Economia de Cambridge, Inglaterra, “o Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história da economia”, tornando o Brasil de novo completamente dependente e submisso ao capital estrangeiro. Sem falar no crescimento do desemprego e da miséria, o Brasil voltando ao Mapa da Fome, o salário mínimo reajustado abaixo da inflação, a saúde um caos, violência por toda parte, e assim por diante.

Os eleitores brasileiros rejeitaram em 2002, 2006, 2010 e 2014 o modelo econômico neoliberal de FHC, proposto pelos que se reúnem em Davos como salvação da pátria. E aprovaram o modelo econômico democrático e popular do Fórum Social Mundial, ‘um outro mundo possível’, urgente e necessário. As forças populares, democráticas e progressistas inauguraram um tempo de políticas públicas a favor do povo pobre, o Fome Zero, ecologia integral, e um tempo de participação social, soberania e democracia, com inserção soberana do Brasil no mundo.

O que está sendo julgado dia 14 é exatamente isso: a opção por ‘um outro mundo possível’, a utopia do Fórum Social Mundial, ou ‘Os ricos, podres ricos’ de Davos, na feliz expressão do livro do professor Antônio Cattani. Lula é Fórum Social Mundial e tudo que este Fórum significa e representa: igualdade, justiça, solidariedade, soberania, direitos, democracia. O presidente golpista é Fórum Mundial Econômico de Davos: desigualdade, paraísos fiscais, destruição da natureza, fim da democracia, entrega do patrimônio nacional, da água e da Amazônia, inserção submissa no mundo.

‘Resistir é criar; resistir é transformar’, diz o Fórum Social Mundial, que vai acontecer de 13 a 17 de março em Salvador, Bahia e Nordeste (Contatos e informações: www.fsm2018.org (geral); www.forumsocialportoalegre.org.br – local -). É tempo de resistência, mas resistência também significa criar. É tempo de resistência, mas resistência também exige transformar. Dia 23 de janeiro, 14h, no Auditório Dante Barone, haverá um grande debate, com presença de lideranças sociais, parlamentares – senadores Requião e Paim, Guilherme Boulos do MTST, Marianna Dias da UNE, Salete Carolo do MST, entre outros: ‘AÇÃO GLOBAL ANTI DAVOS – Em Defesa da Democracia, Soberania das Nações e dos Direitos das trabalhadoras e dos Trabalhadores’. O debate acontece ao mesmo tempo em que se instalam em todo Brasil centenas, milhares de Comitês Populares de Defesa da Democracia e em Defesa do Direito de Lula ser candidato. Na sequência do debate, às 16h, haverá um Ato cultural na Esquina Democrática de Porto Alegre. Depois, caminhada e vigília cultural, varando a madrugada.

O mundo, mais uma vez, está com os olhos voltados para Porto Alegre. Por inspiração de Frei Sérgio Görgen, a Rede da Legalidade foi recriada/refundada no Rio Grande do Sul de 2018 e está de novo no ar. (São três edições diárias, de manhã, meio dia e noite. Quem quiser acompanhá-la, procure Rede da Legalidade no Facebook. Ou no Luizmuller’s Blog). Em 1961, o então governador Brizola requisitou os retransmissores da Rádio Guaíba, então a mais ouvida do Rio Grande, e os instalou nos porões do Palácio Piratini, para defender a legalidade, isto é, a posse do vice-presidente eleito João Goulart, Jango, como presidente da República, depois da renúncia de Jânio Quadros. As forças da reação, que viriam a dar o golpe em 1964, não queriam sua posse. (Eu então tinha 10 anos de idade. O rádio grande, na sala da cozinha, casa de papai, Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, ecoava a voz e os discursos de Brizola.) Jango tomou posse, propôs as Reformas de Base, até hoje não executadas.

A Rede da Legalidade foi a voz da resistência e da democracia em 1961, e assim está sendo em 2018, junto com os movimentos sociais, os partidos de esquerda, os democratas que não aceitam golpes nem ditaduras, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo. Como propõe o ex-candidato a presidente dos EUA Bernie Sanders, é hora de nova rebeldia global. “É hora de um movimento articulado para enfrentar os poderosos, os bilionários e a desigualdade estrutural.”

A Rede da Legalidade está no ar de novo, porque os pobres e trabalhadores precisam de uma voz, e é preciso defender a democracia. Assim como é fundamental instalar Comitês de Defesa da Democracia por todos os lados, e garantir o Direito de Lula ser candidato. E resistir a Davos, ao grande capital e aos golpistas. E preparar o Fórum Social de Salvador. O Fórum Social Mundial, um outro mundo possível, e o neoliberalismo de Davos encontraram-se de novo na esquina da história: dia 24 de janeiro em Porto Alegre, em março em Salvador, por todo ano de 2018. Sem recuos nem vacilações. Resistir é criar. Resistir é transformar.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dezenove de janeiro de dois mil e dezoito

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