Festas Juninas: A fé e as lições para a política

por Diác. Antônio Lisboa Leitão de Souza.

O Brasil, em especial o nordeste brasileiro vivenciou neste último final de semana, mais uma vez, o ápice de sua maior expressão cultural: a noite de São João! Das capitais ao interior, talvez não encontremos nenhuma cidade nordestina que não tenha sido contagiada pelo clima de animação e festejos, com as tradicionais fogueiras, comidas típicas do período, embaladas pelo ritmo do forró, das confraternizações, das quadrilhas e outras danças. De fato, somos todos contagiados por esse período de forte expressão cultural, pois é parte de nossa identidade, especialmente para os sertanejos e demais interioranos de origem, como eu, que nasci no vale do Sabugi, no centro do sertão paraibano. Quanta saudade dos velhos e bons tempos vividos nesse período junino, quando crianças, jovens e adultos se deixavam levar pelo clima fraterno, leve, familiar, festivo que o mês de junho representava – e ainda representa – para todos nós.

Todavia, é preciso reconhecer que a dimensão cultural que alcançaram as festividades desse período não traz consigo, pelo menos com o destaque que merecia ter, a reflexão sobre a história e a contribuição social que os chamados “santos juninos” tiveram e deixaram para as gerações até os dias atuais. Cada um com suas particularidades, é importante lembrar que os Santos Antônio, João Batista e Pedro foram homens que muito se preocuparam com a vida social de sua época, defenderam a justiça social e se colocaram no lugar e ao lado dos mais pobres, dos excluídos, dos despossuídos, enfim, daqueles que, em virtude das carências materiais e existenciais, viviam à margem dos centros do poder político e econômico de seu tempo.

No caso específico de S. João Batista, o próprio Jesus Cristo o reconheceu como o maior de todos os profetas até então. E isso não foi gratuito; Jesus não teria feito questão de registrar um elogio dessa magnitude apenas por se tratar de um primo dele. João Batista foi o precursor de Jesus, tendo dedicado sua vida a denunciar as injustiças, a corrupção, as desigualdades, assim como a necessidade de nos convertermos. Com sua vida simples e com um discurso contundente, fez apelos para que as pessoas tivessem coerência de vida, buscassem a justiça acima de qualquer coisa, vivessem com dignidade e valorizassem as pequenas coisas, as relações uns com os outros, não permitindo que, nem mesmo no seio da própria família, um quisesse ser maior do que o outro. Ao contrário, ao anunciar o Messias que viria depois dele, afirmava que somente Ele seria o maior, no caso, Jesus Cristo, de quem não seria digno sequer de amarraras sandálias. Em seus discursos, talvez uma das frases que mais se destaca é a seguinte: “é preciso que eu diminua para que ele cresça”. E ele se referia a quem é o maior, o centro de nossa fé, Jesus Cristo.

É a partir dessa afirmação – “é preciso que eu diminua para que Ele cresça!” – que gostaria de destacar as lições políticas de João Batista para os dias atuais.

Do ponto de vista da fé, isso é muito claro para nós, cristãos e cristãs, que muitas vezes nos apegamos a sentimentos, atitudes e práticas sociais egocêntricas e egoístas, voltadas muito mais para o enaltecimento pessoal ou de grupos particulares, querendo tirar ou encontrar vantagem pessoal em tudo que fazemos. A pergunta que surge quase automaticamente diante das situações em que somos demandados ou desafiados – “o que eu ganho com isso?” – revela o quanto perdemos a referência do sujeito coletivo, do bem comum, da coletividade em que estamos inseridos e na qual o próprio Jesus se expressa, ao mesmo tempo em que deixamos crescer o olho, o interesse individual, um aparente e falso poder pessoal. A ilusão do poder temporal!

Nas palavras modernas do pensador S. Freud, tornamo-nos uma sociedade narcisista na qual o outro não tem espaço, vez, oportunidade. Ou ainda, numa ótica neoliberal, essa realidade deve ser vista com a ‘naturalidade’ de um certo darwinismo social, ou melhor, onde o mercado impera e todos são concorrentes entre si, salva-se quem pode mais.

Porque, então, pensar no outro, preocupar-se com o outro, se quem deve crescer e aparecer é o eu, não o outro?

Ressalto, dessa forma, a atualidade das palavras de João Batista, especialmente para quem se preocupa com a mudança da ordem social vigente: “é preciso que eu diminua para que o outro cresça” é uma proposta de inversão da ordem de valores éticos, morais, religiosos e sociais que predominam nossa sociedade; é uma proposta de mudança na ordem política na qual quem governa é quem procura crescer em detrimento dos governados, onde quem tem o poder procura se perpetuar para que aqueles que lhe elegeram, portanto, aqueles que lhe deram o poder – o povo – não consigam mais mudar a ordem estabelecida, que os oprime.

Sabemos que numa ordem democrática os verdadeiros donos do poder são os eleitores, o povo. Este é o centro de onde emerge e para o qual ou em benefício do qual deveria se voltar toda a ação política governamental. Assim, todos aqueles que exercem cargos públicos deveriam se referenciar na máxima de João Batista: ao invés do seu crescimento e benefício pessoal-particular, o crescimento e benefício da coletividade, daquele que é o centro, a razão de ser da ordem social, o povo. Se esta compreensão e as práticas políticas dela decorrentes estivessem na ordem do dia, possivelmente estaríamos, todos nós brasileiros(as), em uma situação social muito mais justa, igual e fraterna, como defende o próprio Jesus Cristo, não apenas João Batista.

Mas não é isso que vemos em nosso país, nas sociedades moderna e contemporânea. Observando o Brasil neste ano eleitoral, é possível identificarmos uma preocupação gigantesca com as projeções individuais, com candidaturas que estão interessadas muito mais em defender seus nomes e projetos pessoais do que os interesses do povo; candidaturas que são construídas nos gabinetes, de cima pra baixo, sem qualquer crítica ou autocrítica acerca do quadro de miséria, de violência, de desemprego e de discriminação que afeta a maioria da população, especialmente a mais jovem. Vemos políticos e partidos que não nascem das bases, do meio popular, não dialogam nem têm representatividade que justifique sequer seu pleito ou seu postulado às estruturas governamentais. Entretanto, em função do interesse egoísta e dos grupos privados que representam, almejam o poder para que eles cresçam e o povo desapareça, para que sua dominação seja ampliada com base na exploração e dominação da maioria.
Infelizmente, ainda há muita gente que não entende isso, que não aproveita as festividades para estabelecer a relação que sempre deve existir entre a fé e a política. A situação social em que nos encontramos exige de nós observarmos mais o exemplo e as lições políticas deixadas pelos santos juninos. Com a coragem profética de João Batista e também com o verdadeiro espírito da fé cristã, devemos ‘reconhecer os sinais dos tempos’ e atentar para ao menos dois aspectos: primeiro, se Jesus se expressa no outro e sofre com a situação de opressão vivida pelo outro, em geral os mais pobres, estes precisam receber nossa atenção, nosso cuidado, nosso respeito, e é para estes que a política deve se voltar, não para os que já são abastados em seus berços.

Segundo, se reconhecemos que a política governamental deve ser feita e implementada para que os mais pobres cresçam e se emancipem de sua condição social, de modo que a justiça social seja feita, que a igualdade de fato aconteça, então precisamos identificar os candidatos que não pensam assim, que buscam manter seus privilégios, que são cúmplices de corrupção, que são favoráveis à retirada dos poucos direitos que restam aos trabalhadores, e não mais elegê-los, não mais votar neles.
Somente assim, usando o poder que temos em nossas mãos na hora do voto, podemos promover a inversão da política, criar as condições para uma verdadeira conversão política e mudança da ordem social. Este é o apelo que João Batista faria nos dias de hoje, é esta a lição de fé e de política que devemos colher para os dias tão difíceis que atravessamos. Que a sabedoria e o zelo de Antônio para com os pobres, a força profética, a coragem e a simplicidade de João Batista, além da capacidade de liderança de Pedro alimentem nossa fé e esperança na luta em defesa da vida!

Campina Grande-PB, em 25 de junho de 2018.
Diác. Antônio Lisboa Leitão de Souza

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