FÉ E EDUCAÇÃO POLÍTICA

FÉ E EDUCAÇÃO POLÍTICA

“Gelobt sei Jesus Christus – Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo”, saudei o bispo D. Canísio Klaus, em alemão.

 “In Ewigkeit, Amen – Para sempre, Amém”, respondeu-me ele sem pestanejar, sábado, 21 de março, antes das oito da manhã, na entrada do Seminário São João Batista em Santa Cruz do Sul.

Pensei que ia chegar antes de todo mundo, mas na verdade já era esperado por boa parte das 80 lideranças sociais e políticas, vereadores e agentes de pastoral que participaram  da 14ª Turma da Escola Cristã de Educação política, promovida pelas dioceses de Santa Cruz, Santa Maria e Cachoeira do Sul, (Contatos: padre Zé Renato e Raquel –  asdisc@ibest.com.br; Rosa – pastoral.diocese@yahoo.com.br; Diego – mitracachoeira@brturbo.com.br).

São dez etapas, sempre aos sábados, a última em dezembro. A primeira foi de análise de estrutura e conjuntura, sob minha responsabilidade. Depois, na sequência, cada vez com um assessor diferente, os temas serão: processo de globalização; fundamentos do Ensino Social da Igreja; fundamentos éticos e teológicos da política; diversidade religiosa no Brasil e participação política partidárias das Igrejas; bioética e sustentabilidade ambiental; políticas públicas e conselhos; a relação da sociedade civil com o Estado e as possibilidades de incidência política na garantia de direitos; perspectivas eclesiais dos movimentos sociais e políticos: novas concepções e caminhos na organização da sociedade; e um Seminário integrado de encerramento e avaliação.

Comecei dizendo que não andava fácil fazer análise de conjuntura. É preciso conhecer a estrutura da casa, seus fundamentos e alicerces, isto é, da sociedade, para entender o que se passa no cotidiano da casa, isto é, cortinas, portas e janelas, a pintura, ou seja, a conjuntura.

Em grupos, todos responderam quais eram as bases, a estrutura da atual sociedade. Apareceu de tudo: a família, a escola, o sistema capitalista, o dinheiro, a comunicação. E quais são os três problemas principais da conjuntura: o capitalismo individualizador, o poder da mídia, a democracia maquiada, a corrupção, a educação de interesse. E quais os três pontos positivos hoje do mundo e do Brasil: a democracia, as redes sociais, o acesso aos direitos (educação, saúde, tecnologia), melhoria de renda.  Era o VER, a realidade.

O JULGAR, a análise, teve apoio de entrevistas do papa Francisco, textos de Márcio Pochmann, de Vladimir Safatle, de Cândido Grzybowski. O esforço era entender a estrutura da sociedade capitalista e procurar compreender a difícil conjuntura do mundo, da América Latina e do Brasil: a desigualdade, as mudanças climáticas, a corrupção, o papel dos governos, a importância dos movimentos e das mobilizações sociais, etc.

Por fim, AGIR, o que fazer, a esperança, com textos meus sobre a reforma política e a participação social, artigos sobre o papa Francisco. As rodinhas de cochicho feitas no próprio ambiente concluíram pela necessidade de criar grupos de reflexão e debate nas comunidades e movimentos, de investir na formação de base, pela urgência das reformas, especialmente a política (foram distribuídos materiais para a busca de assinaturas a favor da Lei de Iniciativa Popular sobre a Reforma Política, coordenada pela CNBB e OAB).

Dia intenso de reflexão e debate, com participação de todas e todos, troca de ideias, divergências e opiniões, tudo entremeado por cantos e alegria. No encerramento, a celebração da água – estávamos no Dia da Água –, coordenada por Frei Lírio, todas e todos abençoando-se mutuamente, desejando bom retorno às casas, muita reflexão e luta.

Terminei o dia lendo parte de artigo de Hermano Viana, BUEN VIVIR (O Globo, 13.03.15): “Sumak Kawsay – expressão quíchua, língua falada por cerca de 10 milhões de pessoas principalmente no Peru, Bolívia e Equador – é conceito de difícil tradução. Significa algo como vida boa, ou vida plena, em comunidade e em harmonia com a natureza. O ‘Buen Vivir’ supõe tempo ter tempo para a contemplação e a emancipação. Hoje é base de movimento social/político que se espalha pela América do Sul. O Buen Vivir. Revela aliança entre tradições indígenas e outras modernidades.”

O Bem Viver, hoje inscrito nas Constituições da Bolívia e Equador, pode ser uma referência de utopia e construção do futuro. (Aliás, o tema central do 10º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, em Campina Grande, PB, abril de 2016, será o Bem Viver). Sua vivência na sociedade, entre as pessoas, nas comunidades, nas relações homem-natureza pode tornar transformar a estrutura sócio-econômico-política-cultural e tornar a análise de conjuntura menos árida, mais prazerosa e construtiva. E a fé e a política poderão continuar abrindo um diálogo de valores na construção de uma nova sociedade, ou do Reino.

Selvino Heck

Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

Em vinte e sete de março de dois mil e quinze

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