Entrevista IHU – conjuntura

– Como está analisando e compreendendo o atual momento político do país?

Não há como escapar do lugar-comum: cada dia os ventos da política sopram numa direção. Nesta semana assistimos pela TV a espetacularização da denúncia do Lula como chefe supremo do esquema de corrupção para manutenção do PT no poder. Fiquei impressionado pelo primarismo da denúncia sem provas. Embora ela fosse previsível, foi tão mal feita que me pareceu ter sido improvisada às pressas como manobra para conter o avanço do movimento “Fora Temer”. É claro que um governo que não teve votos não se curvará à pressão das ruas, mas certamente os 70.000 ricaços do Brasil já devem estar preocupados com a fragilidade do governo Temer, incapaz de implementar o projeto de tornar a economia brasileira mais dependente dos EUA. Talvez eles tenham que optar por uma eleição direta para apaziguar o país e nesse caso o resultado é imprevisível. É o panorama que vejo hoje, mirando apenas o cenário político brasileiro.

Acontece que o Brasil está na periferia do sistema econômico mundial, na condição de exportador de bens primários, e isso determina os limites de sua soberania política. Hoje esse sistema vê chegar ao final mais um ciclo de acumulação do capital (baseio-me em ARRIGHI, Giovanni: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo; Rio de Janeiro, Contraponto; São Paulo, Editora UNESP, 1996) e aumentam os sinais da guerra como meio de “destruição criativa” e surgimento de um novo polo dinâmico do capitalismo. Nesse contexto, o realinhamento da América do Sul aos objetivos geopolíticos dos EUA não pode ser subestimado. Artigos de L. A. Moniz Bandeira no IHU/notícias mostram que o Brasil é peça chave nessa estratégia e o governo surgido do golpe a comprovou ao nomear Meirelles e Serra para intervirem nas finanças e nas relações exteriores. Essa pressão externa age no sentido de tornar a economia brasileira mais subserviente aos interesses das grandes corporações e tem peso maior do que os atores políticos que aparecem nos noticiários, embora não seja fácil detectar exatamente onde e como influem.

Enfim, tudo indica que estamos vivendo a segunda tentativa (a primeira foram os governos Collor e FHC) de encerrar o projeto desenvolvimentista brasileiro e reforçar a dependência neocolonial. Espero e luto – é claro – para abortar essa tentativa antipopular e antinacional, porque ainda estamos no primeiro tempo do jogo e nada está definido.

Qual tem sido a relação da Igreja com o momento político que o país vive? Como a Igreja tem atuado e se manifestado neste momento?

Refiro-me aqui apenas à Igreja católica romana, por ser a minha Igreja: com ela me alegro quando cumpre sua missão de refletir a luz de Cristo para o mundo, e com ela sofro quando se fecha na opacidade dos templos e cúrias. E os tempos atuais são de sofrimento. Ilustro com uma análise da Mensagem pelo dia da Independência, assinada pela Presidência da CNBB e publicada em seu site.

Ela diz que “vivemos um triste momento de nossa história”. A expressão “triste momento” foi usada pelo papa Francisco, ao referir-se ao momento político e foi por muitos interpretada como sua condenação ao golpe. A CNBB, porém, a interpreta como “ausência de valores éticos e morais (que) provocou a profunda crise política, econômica e social que estamos atravessando.” Em outras palavras, teriam sido os desmandos do governo anterior que provocaram o “triste momento”. O governo oriundo do golpe só tem a agradecer à CNBB essa generosa hermenêutica…

Mais grave, porém, é a completa ausência de referência ao Grito dos Excluídos. É como se a CNBB ignorasse que, por iniciativa das Pastorais Sociais, há 22 anos milhares de pessoas saem às ruas no dia 7 de setembro para protestar contra as exclusões sociais. Quem esteve nessa grande e alegre manifestação popular que reunia cristãos e não-cristãos clamando pelos Direitos da Terra e dos Pobres, repleta de gente jovem, fica decepcionado com essa omissão da CNBB. Felizmente, desde o Concílio Vaticano II temos consciência de que a Igreja não são os ministros ordenados, mas todo o Povo de Deus. Nas ruas e praças de todo o Brasil estávamos leigos e leigas, padres, religiosas e provavelmente alguns bispos que mantém a opção pelos pobres. Por isso, posso dizer que no dia 7 a Igreja estava, sim, clamando por direitos e de vez em quando gritando o popular “Fora Temer”.

– É possível estabelecer um quadro comparativo de qual foi o papel que a Igreja desempenhou no país à época da Ditadura Militar e que papel tem desempenhado na crise política atual? O que mudou na Igreja e no país ao longo desses 60 anos?

Em 1964 a Igreja católica contribuiu muito para o sucesso do golpe, ao promover as marchas “da Família, com Deus, pela Liberdade”. D. Helder e poucos outros bispos eram a voz isolada que alertava para a perda de Direitos e de Liberdade que viria com os governos militares. Só depois de 1968, devido à prisão e assassinato de agentes de pastoral, a CNBB tomou uma atitude firme contra o regime dito de Segurança Nacional. Hoje a política eclesiástica recomenda o silêncio. Talvez porque a maioria do episcopado católico apoie o golpe, mas não quer apoiar publicamente um governo de baixo teor ético. Muitos fatores podem explicar essa mudança. Aponto somente um, sem avaliar seu grau de importância: a fragilidade do episcopado. Diferentemente dos anos 1960, quando os bispos eram objeto do respeito geral – mesmo quando se discordava de seus posicionamentos políticos – hoje a maioria do episcopado é formada por figuras de pouca importância na sociedade, que restringem sua ação aos espaços dos templos e das cúrias. Existem também, é evidente, bispos corajosos, sensíveis e bem preparados, mas, talvez para não provocar a reação contrária dos demais, optam pela discrição em suas ações e pronunciamentos. Com esses se pode contar, porque sua opção profética é firme.

– A Igreja deixou de ser um protagonista na discussão e análise política? Por quê? Essa mudança tem relação com a nomeação de novos bispos?

A grande Igreja visibilizada pela CNBB e pelas arquidioceses mais populosas, sim. Há exceções evidentes, como a Operação Pan-Amazônica e as lutas contra as grandes mineradora mas, ao contrário do que pede o Papa, que quer vê-la em saída, a grande Igreja retirou-se para a tranquilidade dos templos. A Igreja da base, porém, não deixou de ser protagonista, porque os leigos e leigas atuam em muitos movimentos sociais e políticos, embora esse setor – minoritário – não tenha a mesma relevância de outros tempos. É claro que bispos e padres cuja atuação pastoral reduz-se a celebrar missa, fazer adoração do Santíssimo, puxar o terço, e dar conselhos de auto-ajuda ao vivo ou pelas redes católicas de rádio e TV em nada ajudam a Igreja a ser presença transformadora no mundo.

– Percebe algum tipo de implicação nesta mudança de comportamento da Igreja?

Sim, é o que a sociologia das instituições religiosas chama desafeição: os laços que unem o fiel à Igreja se esgarçam e vai-se criando um abismo – teológico, moral e afetivo – entre a hierarquia eclesiástica e o conjunto dos leigos e leigas. Enquanto os templos tornam-se espaços de serviços mágico-religiosos (mágicos, sim, porque missa de cura e libertação, sessões de exorcismo e certas bênçãos não podem ser chamados de rituais religiosos), sai frustrado quem busca na Igreja uma mensagem ética que ajude a tornar a humanidade mais justa, pacífica e reconciliada com a Terra. Bem que o papa Francisco tem-se esforçado no sentido de colocar a Igreja toda nessa direção, mas muitos bispos, padres e também movimentos católicos não lhe dão ouvidos.

Como tem interpretado os discursos do papa Francisco em relação à economia e ao enfrentamento das desigualdades sociais?

Francisco avança muito nos gestos e nas falas, mas é cauteloso nos textos oficiais. Quando ele se encontra com Movimentos sociais e afirma “o direito sagrado dos «três T»: terra, teto e trabalho”, dá o respaldo religioso às principais lutas populares. Em sua encíclica sobre o cuidado com a casa comum, porém, não usa nem uma vez a palavra “capitalismo” ou “capitalista” como se não fosse esse sistema o grande responsável pelos estragos à vida da Terra. É um dos limites da grande Igreja: por receio de quebrar o consenso, evita-se apontar os responsáveis pelos males.

– Que perspectivas vislumbra para o Brasil daqui para frente?

Como disse na resposta à primeira pergunta, o cenário ainda não está definido. O mestre A. Gramsci prescreve “pessimismo na análise, otimismo na ação”. De fato, a análise indica que as grandes corporações capitalistas pretendem o fim do desenvolvimento nacional e o desmonte das instituições democráticas, mas a baixa qualidade dos atores escolhidos para desempenhar essa função e as mobilizações sociais do 7 de setembro dão a esperança de ser ainda possível reverter o processo golpista.

– Deseja acrescentar algo?

Basta deixar a data de hoje: 16 de setembro de 2016.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira*

*  Doutor em Sociologia, Professor aposentado dos PPG em Ciência/s da Religião da UFJF e da PUC Minas. Membro de ISER-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Felix do Araguaia e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/560358-igreja-e-politica-a-base-nao-deixou-de-ser-protagonista-entrevista-especial-com-pedro-ribeiro-de-oliveira

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