Educação para a Demografia

por Selvino Heck.

“Haveria outro antídoto, senão vigorosa, ampla e constante luta pela isonomia, a educação para a democracia?”

A citação de abertura é de artigo do professor Francisco Marshall, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul): KAKISTOCRACIA, REGIME BRASILEIRO (Caderno Doc., Zero Hora, 28-29/04/2018, p. 7). “Kakós, ruim, em seu superlativo kakistos, o pior. Eis o nome revelador do regime brasileiro: kakistocracia. Oligarquia clepto e kakistocrática, em que somos governados pelos piores.” (Confesso que não conhecia os termos, apesar de meu estudo de grego em tempos idos no Seminário de Taquari.).

O artigo do Professor Marshall é denso, e demolidor. A vontade é de transcrevê-lo na íntegra. “A partir da sociedade brasileira escravocrata, o Brasil tornou-se a oligarquia mais poderosa da história global. Em termos de filosofia política clássica, o Brasil é uma oligarquia, regime de poucos para poucos, em que a palavra democracia significa ou uma máscara acobertando este nome secreto, ou uma sisífica pauta de anseios e lutas da sociedade esclarecida – e eis que Sísifo voltou para o sopé da montanha. A oligarquia torna os bens sociais fundamentais privilégios restritos e, sobretudo, rouba destinos e riquezas. Aplica-se o termo à endêmica corrupção com que o capital empresarial abraça o Estado, mas também ao rapto continuado da base econômica que pode gerar uma sociedade moderna, a renda. Está naturalizado o fato de que cabe renda glamourosa para os donos do poder e vergonhosa para o restante. Neste caso, cleptocracia, ou oligarquia cleptocrática, regime dos ladrões, muito descritivo do que temos. (…) A renda média brasileira foi em 2017, R$ 1.268,00/mês (IBGE). Resultado disso calcula Thomas Piketty (PSE), 1% da população brasileira detém 30% da renda nacional, o que nos dá a liderança mundial na desigualdade de renda, com reflexos sociais mórbidos. Não somos o país da desigualdade, mas da iniquidade.”.

Fiz a pergunta do professor Marshall sobre a educação para a democracia no Seminário do Movimento Nacional Fé e Política, de 4 a 6 de maio em Fortaleza, com o tema ‘POLÍTICAS PÚBLICAS, ÉTICA E PRÁTICAS SOCIAIS NA PERSPECTIVA DO BEM VIVER’.

O professor e economista Juarez Guimarães, em resposta ao meu questionamento, falou em fazer uma crítica política ao neoliberalismo e construir uma nova hegemonia: construir novos princípios de organização na organização da vida coletiva, o que deve acontecer também no Estado. E identificou pelo menos cinco ações urgentes na conjuntura, na educação para a democracia: 1. Não se pode deixar livre o espaço democrático. Lutar por políticas públicas fundamentais; Faz-se necessário refundar o Estado através de uma Constituinte livre, exclusiva e soberana. E lutar por Lula livre; 2. Colocar a unidade das esquerdas no centro, como fundamental; 3. Fazer disputa no espaço da comunicação. A Caravana de Lula pelo Nordeste teve acompanhamento de 30 milhões de pessoas via redes sociais. A TVT ganhou da Globo na celebração acontecida em São Bernardo antes da prisão de Lula; 4. Organizar o Congresso do Povo, estimulando a emergência dos organizadores do povo; 5. A Teologia da Libertação pode/deve ser a impulsionadora do Bem Viver, com sua mensagem profética, junto com as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).

Há, sem dúvida, um longo caminho pela frente a ser trilhado com muito trabalho de base e continuada formação política. A realização do Congresso do Povo brasileiro em 2018 é um dos momentos fundamentais na construção de um Brasil não oligárquico, que não seja uma kakistocracia. Os objetivos do Congresso do Povo são (www.frentebrasilpopular.org.br): “1. Construir com as organizações populares, em diálogo com o Povo brasileiro, as bases de um novo Projeto de país; 2. Politizar a sociedade debatendo a crise econômica, política e social brasileira, bem como identificar as saídas para esta crise; 3. Conscientizar o povo na defesa dos seus direitos, da democracia e da soberania popular sobre os recursos naturais: petróleo, minérios, água, terra, biodiversidade, alimentos; 4. Articular e envolver o maior número possível de militantes e lideranças populares no maior número possível de municípios brasileiros e bairros das grandes cidades; 5. Motivar a que em cada bairro e município se organizem Comitês Populares da Frente Brasil Popular, apontando as lutas de massa como única forma do povo reconquistar o governo, recuperar seus direitos e projetar uma nação; 6. Forjar um nova e ampla geração de jovens militantes, com força social e política, engajados na construção de um projeto de país.”.

Os Congressos municipais são realizados em maio, os estaduais em junho, o nacional em julho. Diz a Cartilha para Formadores do Congresso do Povo brasileiro: “O Congresso do Povo deverá ser convocado em qualquer escola, bairro, local de trabalho, por qualquer pessoa ou grupo que queira defender a nossa Democracia, os nossos Direitos e a nossa Soberania. A sua construção está aberta e deve envolver todos os setores democráticos: camponeses, indígenas, quilombolas, sindicalistas, lideranças comunitárias, LGBTs, mulheres, negros e negras, jovens, igrejas, grupos de cultura, agentes de saúde, etc.”.
Como disse a pastora luterana Romi Bencke, Secretária Executiva do CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), no Seminário nacional do Movimento Fé e Política, falando sobre a educação para a democracia: “O movimento deve ser de baixo para cima.”.

A convocação do Congresso do Povo é ampla, pois, e espera/exige a participação de todas e todos. E leva a cantar ANDAR COM FÉ, com Gilberto Gil, como fizeram os participantes do Seminário Fé e Política: “Andá com fé eu vou,/ que a fé não costuma faiá./ Que a fé tá na mulher,/ a fé tá na cobra coral Oh! Oh!/ num pedaço de pão./ Andá com fé eu vou,/ que a fé não costuma faiá.”.

SelvinoHeck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
VEJA TAMBÉM
O Professor por Serlvino Heck. A Paul Singer, in memoriam. Os tempos são duros, muito duros, difíceis. Não bastava fazer 22 anos do massacre de Eldorado de ...
Sem Armas, Livros na Mão por Selvino Heck. Fui criado numa casa/família onde tinha uma espingarda de dois canos, herança do meu avô alemão que nunca conheci. Papai usava a ...
Análise de conjuntura por Pedro A. Ribeiro de Oliveira Juiz de Fora, 7 de março de 2018 Apresentação Procurei neste texto abrir o horizonte temporal e espacial ante...
O Novo, o Presente, o Futuro por Selvino Heck "É no Semiárido que a vida pulsa. É no Semiárido que o povo resiste." É do Nordeste que vem o novo nesta quadra da história. Tr...