Economia verde – Solução pra quê?

Economia verde – Solução pra quê?

A economia verde entrou na pauta da ONU, que no grande encontro de governantes no Rio + 20 a apresentou como a melhor solução para a crise ambiental por assegurar a viabilidade do “desenvolvimento sustentável”. Neste artigo vamos explicar em que consiste essa proposta e quais seriam seus verdadeiros benefícios.

O produtivismo consumista da economia capitalista causa enorme desequilíbrio no sistema de vida da Terra, porque utiliza enormes quantidades de energia e de matérias-primas, e gera mais poluentes (lixos e venenos) e gás carbônico do que a Terra consegue absorver. O sistema de vida da Terra normalmente absorve, aproveita e recicla todo tipo de elementos que a vida necessita para reproduzir-se e diversificar-se. Mas essa capacidade de reciclagem não é ilimitada. Ultrapassado o limite, o sistema entra em pane, como um organismo cujos anticorpos já não conseguem mais combater a infecção. Este é o caso da Terra: adoeceu e está perdendo sua capacidade de autorregeneração. O grave é que o tempo da Terra não é o tempo da espécie humana: para nós um século é muito tempo, mas para a Terra é pouco. Há três séculos a crescente produção industrial vem exaurindo reservas de água, terra agriculturável, energia e minerais e despejando poluição nos mares, solos e ar; mas só recentemente a Terra começa a apresentar claros sinais de perda de vitalidade. Ou seja, paira sobre a espécie humana a ameaça de uma grande catástrofe.

Essa ameaça, percebida por pessoas atentas às questões ambientais, foi ignorada por empresários, economistas e dirigentes políticos até que o risco colapso ecológico os obrigou a buscar uma solução. E assim nasceu a proposta da economia verde. Sua novidade consiste em botar preço nos custos ambientais da produção econômica. Explicando: atualmente só são contabilizados como custos de produção os fatores que têm preço: a terra, o maquinário, a matéria-prima, a força de trabalho e o financiamento. Para efeitos de contabilidade, o lixo, a destruição da biodiversidade, a degradação dos solos e das águas, os danos à saúde humana e animal são definidos como externalidades, isto é, resultam da atividade produtiva mas não são contabilizados como custos econômicos. Aí entra a proposta da economia verde para manter a produção sem prejudicar o sistema capitalista.

Trata-se de, usando uma expressão técnica, precificar as externalidades. Isso quer dizer: se também os efeitos indesejados da produção tiverem um preço para quem produz, este será levado pela própria lógica econômica a reduzir seus custos para não ficar no prejuízo. Assim fazendo, o produtor reduzirá ao máximo as externalidades da produção. Ou, se não conseguir, compensará os males que causar promovendo alguma forma de recuperação ecológica (p.ex. pagando um povo indígena para manter intocados a floresta, os rios e os recursos minerais de seu território). É a própria lógica do mercado de fazer “doer no bolso” de quem provoca danos, que, segundo a economia verde fará o trabalho de preservação ecológica. Ela é proposta como uma “economia sustentável”. Será mesmo?

A novidade é que ela não se rege unicamente pela busca do lucro, como faz o capitalismo atual. Sua proposta leva em conta os três pilares da economia: o lucro, as pessoas e a Terra. Isso representa um avanço, mas ao colocar em pé de igualdade o lucro, as pessoas e a vida do Planeta, ela trata o lucro como se fosse equivalente aos direitos da pessoa humana e da Terra.

Seu objetivo é criar um novo e enorme campo de negócios para os investidores de capital, que desde a crise de 2008 correm o risco de ver seus títulos perderem o valor. Para isso, quer que bens comuns como conhecimentos tradicionais, água, sementes, biodiversidade, oceanos, florestas e atmosfera sejam privatizados. O argumento é que somente quem é dono cuida bem do que tem, pois o que é de todos não é de ninguém e o Estado – que devia cuidar – não cuida. Este é o argumento que vem sendo repetido de todas as maneiras, com insistência cada vez maior, até todo mundo aceitar que as grandes corporações se apropriem dos bens naturais. Se tiver sucesso, a economia verde será como a tecnologia dos agrotóxicos que em meados do século passado foi chamada de Revolução Verde: favoreceu o agronegócio e a concentração da propriedade da terra, mas não acabou com a fome no mundo… Ao contrário!

Ao conferir valor aos bens e serviços gratuitos da natureza, a economia verde promete tirar o sistema capitalista do impasse ecológico aonde se meteu. Mas cercar a natureza, privatizá-la, não garante sua preservação. A experiência das últimas décadas de capitalismo neoliberal mostra que a privatização dos serviços públicos foi ótima para as grandes empresas, mas o progresso na tecnologia serviu antes para aumentar os lucros do que ao bem-estar das pessoas. Qual seria, então, a melhor maneira de se preservar esses bens comuns gratuitamente oferecidos pela Mãe-Terra?

Esta é a grande questão do nosso tempo. A Cúpula dos Povos, também reunida no Rio de Janeiro, propõe alternativas como a Economia Solidária que deveria ser a forma normal da toda economia ser, e o ideal do Bem-viver que deveria ser a forma normal de se organizar a sociedade humana reconhecendo-se parte da grande comunidade de vida. Conhecer, debater e difundir essas ideias é o modo mais seguro de evitar a privatização dos bens e serviços que a Mãe Terra, generosamente, nos tem dado.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira Sociólogo, Professor do Mestrado em Ciências da Religião da PUC-Minas e Colaborador de ISER-Assessoria

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