Domingo da Ressurreição

por Tereza Pompéia Cavalcanti – PUC-Rio – fonte: IHU – 

Leituras: At 10,34ª.37-43;  Col 3,1-4;  Jo 20,1-9

As leituras de hoje nos surpreendem.

Nos Atos dos Apóstolos vemos Pedro atravessar as fronteiras entre judeus e pagãos para dar testemunho do Ressuscitado. Fronteiras que as diferenças religiosas haviam transformado em barreiras e discriminação supersticiosa. De fato, na mentalidade judaica, os pagãos eram impuros e pecadores, por serem idólatras e infiéis. Porém Pedro passara por uma experiência curiosa, um sonho em que lhe foi revelado que Deus não faz diferença entre as pessoas, ainda que pertençam a religiões e nações estranhas: o que vale, para o Deus de Jesus Cristo, é ser temente ao Criador e praticar a justiça. Era o caso de Cornélio, centurião romano que orava sempre a Deus e era muito querido na cidade de Cesaréia porque ajudava muita gente.

Diante disso Pedro aceita entrar na casa de Cornélio e falar a toda a sua comunidade. Disse então que aquele Jesus que passara pela Galileia e Judeia fazendo o bem e curando a todos, “Deus estava com ele!” (At 10,38). E continuou Pedro: “Nós somos testemunhas de tudo o que fez na Judeia e em Jerusalém. Mataram-no, pendurando-o num madeiro. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e fez que aparecesse, não a todo o povo, mas às testemunhas designadas de antemão por Deus: a nós, que comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos” (At 10, 39-42).

Pedro fala várias vezes no seu discurso em ser testemunha de Jesus, de sua vida, morte e ressurreição. Certamente não espanta encontrar testemunhas da vida e da morte de um profeta que atraía multidões. A novidade espantosa é testemunhar sua ressurreição! Pedro afirma que Jesus, vivo após sua morte, comeu e bebeu com seus discípulos; desse modo ele evitava que o Ressuscitado fosse confundido com um fantasma. Mas como teria sido a experiência do encontro com Jesus ressuscitado?

É aqui que entra a leitura do Evangelho de hoje! O Evangelho de João, escrito pelo “discípulo amado”, nos traz um relato dessa misteriosa experiência, da qual ele nos dá seu testemunho. Tanto assim que, ao finalizar seu Evangelho, ele diz: “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e as escreveu. E nós sabemos que o testemunho dele é verdadeiro” (Jo 21,24).

Vejamos então o que diz o texto: antes de falar na ressurreição, o autor (autora? autores/as?) nos dá dois detalhes significativos:

Primeiro detalhe: Ao relatar o enterro de Jesus, o texto diz: “No lugar onde Jesus fora crucificado havia um jardim, onde havia um túmulo no qual ninguém ainda tinha sido sepultado. Então, (…) aí colocaram Jesus” (Jo 19,41-42). Portanto, o lugar onde Jesus foi sepultado era um jardim. Ora, sabemos que o Evangelho de João dá muita importância ao que é simbólico.  Esse detalhe nos remete ao jardim do Éden, lá do Gênesis (Gn 2,8-9). O texto parece sugerir que uma nova Criação se anuncia. A primeira Criação se encerrou: como dissera o crucificado, tudo estava consumado (Jo 19,30). E ao entregar seu espírito ao Pai, Jesus abria o caminho para a Nova Criação.  De fato, o quarto Evangelho introduz o tema da ressurreição dizendo: “No primeiro dia da semana…” (Jo 20,1). Primeiro dia: tudo recomeça! Uma Re-Criação. E ainda mais: “bem cedinho, quando ainda estava escuro” … A luz começa a vencer as trevas – é o limiar entre a morte e a vida! Algo misterioso, cheio de expectativa (cf. Salmo 130,5)!

    Segundo detalhe: esse cenário do jardim – lembremos que Maria Madalena confunde Jesus com o jardineiro (Jo 20,15) – também nos remete ao Cântico dos Cânticos, onde um jovem casal apaixonado brinca de esconde-esconde pelos campos, sentindo o perfume das flores e sentando à sombra das árvores (Ct 2, 1-3. 11-13). A Ressurreição pertence, portanto, ao ambiente do AMOR! Sem amor, não acontece ressurreição!

E o Evangelho de João continua: Maria Madalena, apressada, não espera o sol acabar de nascer: como a amada do Cântico, corre à procura de seu Mestre querido. Ao ver a pedra do túmulo afastada, ela nem entra, logo deduz que alguém tirou (roubou?) o corpo de Jesus. E lá vai ela, chamar os discípulos, os mais próximos do Mestre: Pedro e o “discípulo amado”, o autor deste Evangelho (Jo 21,24): “Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde o puseram!” (20,2). Se ela disse “não sabemos”, no plural, deve ser porque estava acompanhada de outras mulheres, como relatam os outros Evangelhos.

Os dois discípulos correm, cada qual na velocidade que o corpo lhe permite… O discípulo amado, mais jovem (?), chega antes e espera, por respeito, Pedro entrar primeiro. Diz o texto: “Então entrou o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro; ele viu e creu” (Jo 20,8). O que foi que ele viu? Apenas alguns panos que envolveram o cadáver de Jesus e o sudário “enrolado à parte” (v. 7). Mas e o corpo de Jesus? Como sumiu? O evangelho acrescenta apenas: “De fato, ainda não tinham compreendido que ele devia ressuscitar dos mortos, de acordo com a Escritura” (v. 9). Na verdade, o discípulo amado não viu nem o corpo de Jesus, nem o próprio ressuscitado. Viu um vazio, uma ausência. Então ele se lembrou da Escritura que anunciava a ressurreição.  E a partir daí, ele acreditou.

Assim o discípulo amado dá testemunho de sua primeira experiência da ressurreição de Jesus. A experiência de uma fé que, com a ajuda da Escritura, renasceu do amor, mesmo sem ver o amado, mesmo na ausência física do amado! Naquele momento ele compreendeu o sentido das Escrituras: elas apontavam para um Deus que, por ser todo amoroso, é capaz de mostrar que “o amor é forte como a morte” (Ct 8,6) … Na verdade, o amor é capaz de fazer a vida renascer da morte!

 Ao contrário de outros discípulos que só acreditaram na ressurreição após as aparições de Jesus ressuscitado, João acreditou sem precisar ver!

De fato, o Evangelho de João enfatiza muito a questão do ver e não crer em oposição ao não ver e crer. Por isso é que, mais adiante, o evangelista relata a incredulidade de Tomé que quis ver para crer. Jesus então adverte: “Você está acreditando porque viu? Felizes os que não viram e acreditaram!” (Jo 20,29). João estava pensando em nós, seus leitores e leitoras…

Que nós possamos, então, aprender a fazer essa travessia de crer apesar de tantas experiências de não ver: não ver a justiça reinar, não ver a paz prevalecer, não ver o amor triunfar…

Talvez seja por isso que a epístola aos Colossenses recomenda que nós procuremos “as coisas do alto”. As coisas que estão “escondidas em Cristo, com Deus”. E “quando Cristo, vossa vida se manifestar, então vós aparecereis gloriosos junto com ele “  (Col 3,4).

A justiça, a paz, o amor, enfim a ressurreição estão por aí, no meio de nós; mas parece que estão disfarçadas, escondidas. O Reino de Deus é como semente. Cabe a nós treinar nosso olhar para poder enxerga-lo e fazê-lo desabrochar.

Tereza Pompéia Cavalcanti – PUC-Rio

Fonte: IHU (Instituto Humanitas Unisinos)

 

 

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