CRISE. CRISES.

CRISE. CRISES.

‘Eli, Eli, lamá sabactani – Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ (Mt 27, 46), gritou Jesus, antes de ‘gritando de novo com voz forte, entregar seu espírito’ (Mt 27, 50).

O feriadão de Páscoa era o primeiro grande acontecimento do ano depois do Natal, pra quem morava em Santa Emília, interior do interior do Rio Grande do Sul, em tempos idos, anos 1950/1960. A Quinta-feira Santa era feriado e dia de festa. A última ceia de Jesus, quando lavou os pés dos apóstolos. (Diz a Campanha da Fraternidade/2015, ‘eu vim para servir’). Sábado de Aleluia era o canto da espera e da alegria. Domingo de Páscoa, a passagem estava feita a ressurreição tinha acontecido, a vida pulsava de novo (e, claro, acompanhada dos ovos de Páscoa, feitos em casa, recheados de gostosuras, os chocolates e as doçuras dos encantos infantis). O Espírito inspirava esperança e futuro.

A Sexta-feira Santa era o dia mais estranho do ano em tempos de criança. Não se podia fazer nada. Nenhum barulho, silêncio total, o sino não tocava na igreja antes de iniciar a celebração, não se podia brincar, falar só o mínimo necessário, usar preto, não buscar pasto para os animais, nem pensar em trabalhar. A comunidade sabia: três da tarde, hora da via-sacra e de beijar a cruz. Dia de jejum e abstinência: fazer uma refeição por dia, nada de carne. Sexta-Feira Santa, o dia da crise total e absoluta. Jesus morreu crucificado. Esperar o que?

Passei muitas crises na vida. 1976, quando foi proibida a ordenação para padre. 1984: a mais que dolorida separação da Marta. 1990: a não reeleição como deputado estadual. 1998: não integração na equipe do governo Olívio Dutra, primeiro governador do PT do Rio Grande do Sul. 2004: Frei Betto sai do governo Lula e deixa a responsabilidade de continuar seu trabalho com a equipe do TALHER. 2005: o chamado Mensalão, suas dúvidas e consequências. 2015: o contexto geral, mundial e brasileiro, e as mudanças de governo em andamento, pessoais e políticas.

A palavra crise vem do latim ‘crisis’: momento de decisão, de mudança súbita. E do grego ‘krísis’: ação ou faculdade de distinguir, decisão. Nas palavras de Leonardo Boff, em ‘Crise: tragédia ou drama?’, “a crise representa purificação e oportunidade de crescimento. Não precisamos recorrer à palavra chinesa de crise para saber desta significação. Basta recordar o sânscrito, matriz de nossa língua,. Em sânscrito, crise vem de ‘kir’ ou ‘kri’, que significa purificar e limpar. De ‘kri’ vem crisol, elemento químico com o qual limpamos ouro das gangas e acrisolar, que quer dizer depurar. Então, a crise representa um processo crítico, de depuração do cerne: só o verdadeiro e substancial fica, o acidental e agregado desaparece. A partir do cerne constrói-se uma outra ordem.”

A crise faz sofrer, deixa dúvidas e interrogações. Até Jesus, mostrando-se divinamente humano, sentiu-se abandonado: “Onde estão meus discípulos e amigos? Por que tenho que enfrentar todas as dores do mundo? Por que tenho que morrer? Ou por quem? Não foi qualquer grito, o de Jesus, nem qualquer frase num momento qualquer. Foi o sentido último, talvez a esperança que quase se desvanecia, a fé no mundo, na humanidade ou até em Deus jogada no ar, expulsa do peito e do coração aprisionado. Foi a crise em grau superlativo e total.

Se a crise pode purificar e trazer o novo –‘do cerne construir uma outra ordem’ -, pode também levar ao caos ou às impossibilidades: não mais conseguir amar; perder o sentido da vida; levar à desagregação social e econômica; fazer enlouquecer.

É preciso, pois, na crise, abrir os olhos, olhar ao redor e, se for o caso, ‘prender o grito’, como diria o gaúcho. Abrir-se para o que poderá vir, desde as coisas pequenas, como mudar de ares, largar hábitos arraigados, ou beber todas, até conseguir reagir. Ou abrir-se às coisas grandes: deixar-se amar, saber-se querido por alguém ou alguéns, saber esperar mesmo sem saber o que vai acontecer, não ter certezas imediatas sobre o futuro, não escolher o primeiro caminho, o primeiro amor que aparece, ou acolher a primeira medida econômica sugerida. Escutar, ouvir, dialogar, deixar-se encantar e enamorar.

Crises são parteiras da história. São passagem e oportunidade. Fazem nascer o novo, até o inesperado. Revolucionam vidas, sociedades, estruturas carcomidas. A crise da Igreja católica produziu o papa Francisco. Crises levam a transformações estruturais, a revoluções.

A crise hoje é econômica e social (vide a Europa e seus dilemas), é política (vide o descrédito de políticos e partidos), é cultural (de valores, vide a intolerância e o ódio crescentes), é ambiental (vide as mudanças climáticas e a falta de água).

Não sei se sairei, não sei se e como sairemos dessa. Mas o simples fato de dizer, de clamar no meio da dor, da paixão pode possibilitar que amanheça o dia, a luz torne a brilhar, o povo acredite na sua força. Sinal de que a passagem foi feita. Sinal de que, depois da morte, do sofrimento, da solidão, da amargura, da insensatez, a água tornou a rolar límpida da fonte, a solidariedade revelou-se a marca dos humildes, a vida, enfim, resplandeceu, íntegra, assim como a justiça e o amor.

Feliz passagem-Páscoa, em meio e depois da crise, a todas e todos!

Selvino Heck

Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

Em dois de abril de dois mil e quinze

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