Correntina e a Autodefesa Popular

por Frei Betto

O preconceito suscita emoção e a emoção conduz à precipitação e, por vezes, a juízos injustos e descabidos. Foi o que ocorreu a partir das imagens, mostradas pelos telejornais, de instalações de uma fazenda em Correntina (BA) destruídas, no dia de Finados, por supostos invasores.

Logo ecoou a grita geral de personalidades conservadoras: “Foi coisa do MST!” Como quem diz: “Coisa de preto”…

A fazenda Igarashi, de capital japonês, situada no oeste da Bahia, tem cinco mil hectares. Para irrigar a sua monocultura decidiu captar água dos rios Correntina, Grande e Carinhanha. Isso em uma região marcada por longos períodos de seca.

Centenas de famílias de pequenos agricultores, que dependem da água dos rios, se sentiram ameaçadas em sua sobrevivência como produtoras e pessoas físicas. Reclamaram junto às autoridades. Não se tomou nenhuma medida.

No dia 2 de novembro, decidiram promover uma ação de protesto na fazenda. Logo atribuída ao MST pelos que “primeiro atiram e, depois, perguntam”. Ora, o MST não se faz presente na região, nem como núcleo de base nem como acampamento ou assentamento.

O protesto das vítimas da ação nefasta do agronegócio nipônico foi organizado por movimentos pastorais e sociais da região, e atingidos por barragens.

Comprovou-se que os projetos de captação de água não levaram em conta os impactos socioambientais e, assim, secam os rios da região e provocam queda de energia. Havia um evidente processo de monopolização privada dos recursos hídricos.

Desde a década de 1970 se multiplicam violações e crimes do agronegócio naquela área. E as autoridades se fazem de surdas. Em 2000, populares desativaram um canal que pretendia desviar as águas do Rio Arrojado. Manifestações religiosas, conduzidas pelo canto fúnebre das “Alimentadeiras de alma”, foram promovidas para denunciar a morte das nascentes. Romarias, com milhares de pessoas, alertaram para a destruição dos Cerrados.

Em 2015, um grande ato com 6 mil pessoas tentou impedir a outorga de água para as duas fazendas alvos dos protestos recentes. O ato foi ignorado pelos órgãos ambientais da Bahia, que autorizaram a exploração de 183 milhões de litros/dia.

Este volume de água, canalizado para apenas duas fazendas, é o suficiente para abastecer, por dia, mais de 6,6 mil cisternas domésticas de 16.000 litros na região do semiárido. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, agrava-se a situação devido à crise hídrica do Rio São Francisco. Hoje, a barragem de Sobradinho, considerada o “coração artificial” do rio, se encontra com o volume útil de apenas 2,84%. E a água consumida pela população de Correntina, aproximadamente 3 milhões de litros/dia, equivale a apenas 2,8% da vazão retirada pela fazenda do Rio Arrojado.

O povo de Correntina exerceu o seu direito democrático de chamar a atenção das autoridades e da opinião pública para o sedecídio a que está sendo injustamente condenado.

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.
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