Como se faz um Ano Novo

Como se faz um Ano Novo
Photo by Jude Beck on Unsplash

Nos ritos sociais da festa de Ano Novo, as famílias se reúnem para o réveillon, abrem garrafas de champanhe e se abraçam com os mais sinceros desejos de um feliz 2020. A televisão mostra como pelo mundo inteiro, ocorrem espetáculos de luzes e esplendor. Oráculos predizem a sorte e jogam búzios para ver como será esse novo ano. Nas praias, se oferecem flores a Iemanjá e quem é mais ligado à Igreja, se reúne em vigília pela paz do mundo.

O ano novo lembra ritos de culturas mais antigas. Em algumas tribos, as pessoas jogam fora roupas velhas para significar o desejo de ser transformados. Outros grupos costumam peregrinar a uma alta montanha ou banhar-se no rio ou no mar, no primeiro momento do ano, para acolher o tempo novo dado por Deus.

As comunidades judaicas celebram o ano novo em setembro. Mas, por algum tempo, o antigo povo bíblico celebrava o ano novo na primavera. Era a Páscoa. Naquele tempo, o fermento que se tinha era o da massa de pão que, cada vez, ia se misturando com a massa nova. Por isso, o fermento era símbolo de corrupção e mentira. Até hoje, nos dias da Páscoa, as famílias judaicas eliminam das casas todo o fermento. Nas sinagogas antigas, o rabino sugeria o que Paulo escreveu: “Joguem fora de suas vidas o fermento da malícia e da corrupção para serem uma massa nova, como pão ázimo (não fermentado) na sinceridade e na verdade” (1 Cor. 5, 7).

Nas sociedades antigas, o rito ocupava um espaço central e era elemento de unidade e de renovação. De certa forma, correspondia ao que, nas sociedades atuais seriam técnicas e dinâmicas de terapia comunitária. Evidentemente, não serão apenas ritos e gestos que vão garantir que os nossos desejos de um ano novo mais feliz e de paz se cumpram. É importante que os nossos ritos do ano novo sejam marcados pelo amor e pela solidariedade e não pelo consumismo que reforça a desigualdade social e as injustiças. Se a noite do Ano Novo consistir apenas em comilanças e bebedeiras, que esperança podemos ter de um ano novo de paz e felicidade para a terra e os que nela habitam?

Em termos de Brasil, 2020 só será um ano mais feliz se conseguirmos superar o ambiente de ódio, intolerância e indiferença com os sofrimentos humanos que os meios de comunicação de massa e o império conseguiram disseminar na sociedade e mesmo nas famílias. Mesmo nas Igrejas cristãs ainda predomina a visão de um Deus narcisista e intransigente, amigo de seus amigos e implacável com quem não segue as normas de sua Igreja. No plano político, a elite sempre garante seus interesses. Os movimentos sociais tentam recompor sua unidade e reconstruir na sociedade o senso de cidadania e a dignidade da Política.

Em outubro próximo teremos novas eleições municipais e podem ser importantes para garantir novas bases para uma transformação social e política cada vez mais urgente. No entanto, a Política terá de ser principalmente o cuidado com o bem-comum. Nas cidades, como em nossas casas, organizemos a vida a partir da solidariedade. Se fizermos isso, vamos experimentar o que diz o Novo Testamento: “Há mais alegria em dar do que em receber”. A maioria festejará a vida e a paz que virão através da justiça. Assim, nesta noite de ano novo, cada pessoa poderá dizer ao seu vizinho uma antiga bênção irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés. O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

Marcelo Barros
Monge Beneditino
Membro do Movimento Fé e Política
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