Cartilha Sexo, Orientação Sexual e “Ideologia de Gênero”

por Ascânio Seleme.

O objetivo da cartilha é difundir o respeito à mulher e aos membros da comunidade LGBTTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros e intersexuais).
Frei Betto é um semeador de livros. Muitos deles tratam de temas religiosos, políticos e do comportamento, alguns são leitura obrigatória. “Batismo de sangue”, um dos mais importantes livros dos anos 1980, conta a sua história e a de outros frades dominicanos que foram perseguidos e presos na ditadura acusados de fazer parte do grupo do terrorista Carlos Marighella. Com este livro, Betto ganhou o Prêmio Jabuti de 1982. Outro texto incontornável do escritor é “Fidel e a religião”, que retrata as relações do ditador cubano com a Igreja.

Ele escreveu também livros infantis e de culinária, mas o que mais vendeu foi uma cartilha de ética e política escrita em 1987, “OSPB — Introdução à política brasileira” virou livro escolar da lista do Ministério da Educação. Foi um texto balizador da nova política nacional pós-ditadura. Agora, duas décadas depois, Frei Betto vai lançar uma nova cartilha, seu 66º livro. Editado com o selo Coleção Saber, do Grupo Emaús, o livro “Sexo, orientação sexual e ‘ideologia de gênero’”discute de maneira abrangente e transparente alguns dos dos principais problemas da atualidade, o feminicídio, a discriminação das mulheres e a dificuldade para que homens e mulheres expressem livremente sua orientação sexual.

O objetivo da cartilha é difundir o respeito à mulher e a todos os membros da comunidade LGBTTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros e intersexuais). Já na introdução, o autor afirma que a cartilha pode muito bem ser lida individualmente, “mas foi escrita para ser lida em comunidade, na família, na escola, na igreja, no sindicato”. Trata-se de um livro que rompe com todas as ressalvas que muitas comunidades, sobretudo a Igreja, tratam do tema. Nada é tabu. Ao contrário, até mesmo as posições retrógradas, vacilantes ou covardes da Igreja Católica são objeto do escrutínio do frade.

Ele ataca a “ideologia de gênero” criada no ambiente da Igreja na década de 90 para combater as teorias de gênero. Betto explica que a tese propagava “a ideia equivocada de que o conceito científico de gênero é mera ideologia, sem base na realidade, como se não existissem gays, lésbicas, travestis, etc”. E a compara a outra ideologia, a racista, que “difunde a ideia de que existem diferentes raças e, entre elas, a branca é superior”.

Claro que a Igreja vive em estado de evolução permanente. O transexual espanhol Diego Neria Lejárraga, por exemplo, foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano depois de ter sido excomungado pelo padre de sua diocese na Espanha. A cartilha de Betto conta isso, mas cita também carta do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade de SP aos bispos do estado pedindo tolerância e respeito. “É contra essa homofobia presente nas nossas paróquias e dioceses, contra esse ‘medo’ das pessoas homossexuais e transgêneros, que pedimos uma voz forte lembrando que qualquer oposição doutrinária que possa haver às práticas afetivas das pessoas LGBTTI não elimina a dignidade fundamental que possuímos como filhos e filhas de Deus.”

O mais importante no texto, contudo, não é o desabafo de Frei Betto, mas os seus ensinamentos escritos numa linguagem fácil de entender e dedicada a fazer luz sobre a escuridão em que os temas da violência contra a mulher e da diversidade de gêneros estão submetidos. Ele afirma, por exemplo, que o transgênero pode se manifestar numa pessoa desde muito cedo, na infância. E que é preciso ficar atento às crianças. O livro remete ao debate sobre o “Escola sem Homofobia”, o popular kit gay que foi bombardeado por Jair Bolsonaro no Congresso. Segundo Betto, “não se ensina um heterossexual a virar homossexual, como tampouco se ensina um homossexual a virar heterossexual”.

Na defesa da independência e respeito à mulher, o autor lembra em seu livro que de cada 100 homens, 90 conseguem ganhar dinheiro com seu trabalho, enquanto de cada 100 mulheres, apenas dez conseguem sobreviver com seus próprios recursos. O livro/cartilha “Sexo, orientação sexual e ‘Ideologia de gênero’” tem 64 páginas e vai custar R$ 5. Barato, para que seja de fato acessível a muitos. Frei Betto estudou Jornalismo, Antropologia, Filosofia e Teologia. Seus livros já foram traduzidos em 24 idiomas para 35 países.

Pedidos para envio por correios: tecacarvalho@uol.com.br.

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