Dominicanos apoiam as Comunidade Eclesiais de Base

Frei José Fernandes, provincial da Ordem Dominicana no Brasil publicou uma carta a propósito do ataque de grupos contrários à espiritualidade político-libertadora, durante o 14º Encontro Intereclesial de CEBs. Vale a pena conferir – Pedro Ribeiro

 

 

 

ORDEM DOS FRADES PREGADORES
PROVÍNCIA FREI BARTOLOMEU DE LAS CASAS

Nunca podemos nos esquecer de que as comunidades cristãs
nasceram no meio dos pobres como um grito de esperança
e lugar de relações igualitárias e inclusivas”
(Carta final do 14º Encontro Intereclesial das CEBs)

Entre os dias 23 e 27 deste mês aconteceu em Londrina, PR, o 14o Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. Com o tema: “CEBs e os desafios do mundo urbano”, um dos desdobramentos do Encontro foi ter que enfrentar aquilo que aparece como um dos principais desafios da vida urbana na atualidade: a comunicação efêmera e fluida, que nem sempre possibilita a reflexão e o alcance da verdade, dando margens à construção de discursos falaciosos e mal intencionados.

Nesse sentido, nós, frades dominicanos da Província Frei Bartolomeu de Las Casas, consideramos uma inspiração providencial, que o nosso 6º Capítulo Provincial esteja acontecendo nos mesmos dias deste Encontro, cujo lema é: “Eu vi e ouvi o clamor do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7-8); oportunidade em que o Papa Francisco nos recorda que “Deus nunca é indiferente ao sofrimento do seu Povo, e enviou Jesus Cristo para nos libertar da escravidão do pecado e da morte”. Ouvindo o clamor dos pobres e famintos de Deus, de justiça e de pão, Francisco faz votos para “que nossas Comunidades Eclesiais de Base, sejam instrumentos de evangelização e de promoção da pessoa humana, capazes de ir ao encontro dos terríveis efeitos da cultura do descarte”. (Mensagem do Papa Francisco ao Intereclesial)

Muito nos impressiona como, no contexto atual, as Comunidades Eclesiais de Base conseguem convocar 3.300 delegados/as de todo o Brasil, que chegaram até Londrina motivados por um espírito de romaria; grande parte deles/as, tendo enfrentado dezenas de horas de viagem.

As CEBs estão entre as organizações da sociedade civil que mais contribuíram com o processo de democratização da sociedade brasileira, que culminou na elaboração da Constituição de 1988. Por isso, no momento que assistimos ao desmoronamento das instituições democráticas do país e a um acelerado processo de perda de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, é sintomático que grupos aliados à ordem política vigente procurem atacar, de forma desleal, as comunidades e suas lideranças de maior referência. É claro: o sucesso deste Encontro incomodou.

Portanto, manifestamos nosso repúdio à campanha promovida em redes sociais para hostilizar os participantes deste Encontro Intereclesial. De teor totalmente distorcido sobre o que as CEBs representam para a Igreja, a sociedade brasileira e latino-americana, esta campanha tenta vincular as comunidades diretamente ao Partido dos Trabalhadores, desconhecendo a liberdade dos membros das comunidades de fazerem opção político-partidária.

De igual modo, reprovamos a tentativa de demonização de alguns cristãos historicamente comprometidos com a opção preferencial pelos pobres e a efetivação da justiça social no Brasil, entre tantos outros, o senhor José, que viajou dias de ônibus vindo de Natal, o também dominicano Frei Betto, o monge beneditino Pe. Marcelo Barros, o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, o educador Paulo Freire – in memoria -, a pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Romi Benke e o arcebispo de Londrina Dom Geremias Steinmetz.

As referidas mensagens, construídas a partir de frases isoladas e fora de seus contextos, querem fazer da Igreja Católica uma instituição que deveria estar alheia às questões sociais e às causas dos empobrecidos. Nelas a mensagem do Evangelho é compreendida como se fosse uma mera mensagem de autoajuda, desarraigada da vida e da História. Essa forma equivocada de interpretação do Evangelho, assim como a apreciação tendenciosa das CEBs enquanto modelo de Igreja, revelam um total desconhecimento da história do Brasil e da história da Igreja do Brasil.

Outro equívoco e/ou má intenção apresentados nas mídias em questão, é a tentativa de vincular a data do Intereclesial ao julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, visto que a data do Encontro foi definida há quatro anos, e que, ultimamente, os Encontros têm acontecido a cada quadriênio.

Assim, o 14º Intereclesial surge como luz e impulso a fim de que a Igreja do Brasil possa adotar uma postura de resistência e profetismo diante da crise que assola a sociedade brasileira, atingindo, sobretudo os menos favorecidos.

Diante disso, nós, frades dominicanos do Brasil, reconhecemos e apoiamos as CEBs como importante espaço de reflexão do Evangelho, capaz de suscitar um momento novo na vida da Igreja, comprometendo-a cada vez mais com os empobrecidos da sociedade brasileira e ajudando-a a posicionar-se na contramão da postura política das elites dominantes e opressoras, que insistem em não aceitar a autonomia e o protagonismo das organizações populares.

São Paulo, 30 de janeiro de 2018.

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