Bem-viver: Uma proposta para a vida da Terra

Bem-viver: uma proposta para a vida da Terra

Apresentação

Este é o primeiro de dois artigos em preparação ao 8º Encontro Nacional de Fé e Política, cujo tema é “Em busca da sociedade do Bem-viver: Sabedoria, Protagonismo e Política”. Quero tratar aqui a importância desta proposta tanto para os setores de esquerda que acreditam no êxito do processo de transição em curso em vários países de Nossa América, quanto para os setores que propõem uma ruptura radical com o atual modelo produtivista-consumista. No segundo artigo desenvolverei um pouco mais os problemas envolvidos no conceito de Bem-viver.

Diferentes apreciações da conjuntura brasileira

Os setores de esquerda – isto é, quem coloca a igualdade como um valor a ser realizado na sociedade – têm uma avaliação diferente da conjuntura brasileira dos últimos dez anos. Uma parte (a maioria, provavelmente) entende que vivemos um período de transição do capitalismo produtivista-consumista para um sistema que ainda não se sabe definir bem, mas que deverá ser democrático, justo e ecologicamente equilibrado. Outra parte (a minoria) não vê aí mudanças estruturais e entende que é preciso abandonar o sistema regido pelo mercado e construir algo muito diferente. Neste texto de apresentação do Bem-viver quero mostrar como essa proposta poderá fazer avançar a reflexão em busca de uma nova forma de vida na Terra. Acredito que ela poderá ser útil a ambos os setores da esquerda embora ela tenha em vista principalmente o segundo.

A corrente majoritária interpreta a eleição de Lula, em 2002, como o início do processo social desenvolvimentista que já elevou milhões de famílias das classes “D” e “E” para a classe média e que, no governo de Dilma Rousseff, erradicará a miséria em nosso País. Essa visão realça o avanço político do Brasil no cenário mundial – com sua moeda fortalecida, a retomada do crescimento econômico e prestígio internacional – e, embora critique a dificuldade do governo em implementar as três Reformas estruturantes (Agrária, Tributária e do Estado), acredita que estamos no rumo certo para nos tornarmos uma sociedade desenvolvida, justa e democrática.

A outra corrente vê nesse mesmo processo a tentativa de dar mais fôlego ao sistema produtivista-consumista que está dando sinais de esgotamento. Nesta perspectiva, o crescimento econômico não soluciona do problema da miséria porque torna-se um gerador de miséria generalizada num futuro próximo. Na base desta argumentação está o fato de que a riqueza gerada pela agricultura, o comércio, a indústria e os serviços – o Produto Interno Bruto (PIB) – já chega a R$3,675 trilhões em 2010 (dados do IBGE em março de 2011) mas é muito mal distribuída. Se essa riqueza fosse distribuída igualmente por toda a população brasileira, cada pessoa (inclusive crianças e idosos) teria direito a R$19.000 por ano, ou seja, uma renda mensal superior a R$1.000, já descontados os impostos e uma reserva para investimentos. Embora essa visão reconheça os avanços sociais, econômicos e políticos dos governos Lula e Dilma, não vê neles uma mudança de rumo em direção a um melhor sistema social e econômico de vida. Por isso, esse setor da esquerda quer mudanças estruturais no próprio modo de produzir, distribuir e consumir os bens e serviços.

A crítica ao atual sistema de mercado, por natureza produtivista e consumista, parte da exploração dos trabalhadores e trabalhadoras – sem a qual o capital é incapaz de dar lucro – mas não se restringe a ela, como é o caso da corrente marxista ortodoxa. Ela está atenta também ao próprio processo de produção vigente, porque ele se baseia em duas perversões éticas: destina-se primeiramente ao pagamento de juros da dívida pública e prejudica gravemente o ambiente. A Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2011 retira da União R$140 bilhões só para pagar juros da dívida. O pior é que essa quantia não basta e o Tesouro brasileiro precisa tomar novos empréstimos para pagar os juros previstos, no total de R$180 bilhões (isto é, uma mega-sena acumulada de R$20 milhões por hora 365 dias do ano). Ou seja, ao aumentar o PIB e tornar-se o maior exportador de commodities (minérios e produtos agropecuários) do mundo, o Brasil responde antes aos anseios de seus credores (não o FMI e pouco o Banco Mundial, mas principalmente o sistema financeiro privado) do que às necessidades da nossa população. O governo se vê obrigado a fazer todo tipo de concessões ao agronegócio e às empresas de mineração (desmatamento, sementes transgênicas, agrotóxicos que contaminam pessoas, terras e águas, e desertificação), para satisfazer a voracidade dos credores e assim manter a estabilidade financeira e aumentar o consumo da população. Ao endividar-se para produzir e produzir para pagar juros, o ambiente é o grande prejudicado.

O Bem-viver como projeto alternativo

O Bem-viver é um conceito que visa recriar, diante do fracasso do neoliberalismo, um antigo conceito de certas culturas andinas como os Quetchua (Sumak Kawsay) e Aymará (Suma Qamaña). Depois de cinco séculos de colonialismo e dominação européia, os povos tradicionais do nosso Continente buscaram em sua sabedoria ancestral uma proposta de vida que os ajudasse a construir uma nova ordem social e política. No período de mobilização popular contra as políticas neoliberais, aquele projeto de vida coletiva ganhou novo conteúdo e nova forma, e sua força foi tanta que acabou sendo incorporado nas Constituições da Bolívia (2009) e do Equador (2008). Isso despertou a atenção de grupos e movimentos alternativos em outros países e foi assim que, nos últimos anos, o Bem-viver entrou na agenda de um número cada vez mais amplo de movimentos sociais, grupos e pessoas.

Antes de explicar o que é o Bem-viver, é preciso deixar claro o que ele não é: uma volta a um passado idealizado. Os povos que viviam neste Continente antes da colonização européia tinham – e, de certa maneira ainda mantêm – modos de vida muito diferentes da moderna sociedade de mercado. Em todos eles o predomínio de relações de reciprocidade para a circulação de bens (dar / receber / retribuir, em lugar de vender / comprar) e uma tecnologia rudimentar (se comparada à tecnologia ocidental posterior à revolução industrial), condicionaram a constituição de sociedades sem concentração da riqueza, embora socialmente estratificadas conforme seu acesso ao poder político, religioso ou cultural. Por isso, seus valores, suas leis e seus costumes eram – e ainda são – bem diferentes dos valores, leis e costumes da civilização ocidental-cristã. Por este motivo são conceitos inspiradores, mas não modelos a serem imitados.

Se não é um modelo a ser seguido, o que é, então o Bem-viver?

O conceito refere-se a duas palavras com significados semelhantes em Quetchua e em Aymará: suma(k) > muito bom, e kawsay ou camaña > conviver. Literalmente, deveria ser traduzida como “boa vida”, mas sua conotação no Brasil daria confusão. Sua idéia central é a vida em harmonia (i) consigo mesmo, (ii) com outras pessoas do mesmo grupo, (iii) com grupos diferentes, (iv) com Pachamama – a Mãe Terra (v) seus filhos e filhas de outras espécies e (vi) com os espíritos.

Sua importância reside principalmente em sua capacidade de romper o antropocentrismo (isto é, a centralidade da espécie humana que se julga superior a todas as outras) que está na base da civilização ocidental-cristã. Ora, essa civilização entrou em crise e aproxima-se de sua agonia, por ser incapaz de resolver os grandes problemas que gerou com seu sistema de mercado produtivista e consumista. Levado ao paroxismo no final do século XX pelo processo de globalização, ele está provocando graves danos à vida do Planeta e não tem como remediá-los. Leonardo Boff, grande conhecedor do problema, ao criticar essa civilização afirma1:

O antropocentrismo é um equívoco, pois o ser humano não é um centro exclusivo, como se todos os demais seres somente ganhassem sentido enquanto ordenados a ele. Ele é um elo, um entre outros, da corrente da vida. Todos os seres vivos são parentes entre si, primos e primas e irmãos e irmãs, porque todos são feitos do mesmo pó cósmico e construídos com as mesmas informações contidas no código genético.

A revolução neolítica há cerca de 10 mil anos, possibilitou à espécie humana multiplicar-se e dominar outras espécies, pela domesticação das plantas (agricultura) e dos animais (pecuária). A revolução industrial, há pouco menos de 300 anos, lhe possibilitou fazer da própria Terra em um enorme reservatório de recursos naturais a serem retirados, transformados, consumidos e descartados em forma de lixo. Assim, a espécie homo sapiens reina absoluta no Planeta mas vê, assustada, que sua sobrevivência está ameaçada. O Planeta tornou-se pequeno demais para ela.

Neste contexto de crise planetária, os setores de esquerda e todas as pessoas que proclamam “um novo mundo possível” se voltam para outras fontes de saber, seja entre povos originários da América, África e Oceania, seja na sabedoria do Oriente. De Nossa América vem a novidade do conceito de Bem-viver, cuja contribuição será examinada no artigo seguinte. Para quem entende que estamos num processo de transição para outro sistema, este conceito funciona como a utopia que faz avançar, corrige erros, retifica a caminhada e apara excessos. Para quem busca uma ruptura radical do sistema, Bem-viver é um conceito plurivalente, na medida em que abre novas perspectivas éticas, econômicas, culturais e políticas. É o que veremos no próximo artigo seguinte.

Juiz de Fora, julho de 2011

1 Leonardo BOFF: CUIDAR DA TERRA, PROTEGER A VIDA: como evitar o fim do mundo: Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 269.

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