Bem Viver, Profetismo e Política

“Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão. / Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão.” Os versos da canção ‘Se calarem a voz’, de Cecília Vaz Castilho, ecoaram nos altos do Bairro Santa Tereza no Rio de Janeiro, Corcovado, Pão de Açúcar à vista, de um lado, Maracanã, de outro, entoados pelos mais de 70 participantes do Seminário Nacional do Movimento Fé e Política, com o tema “CONJUNTURA: BEM VIVER, ECONOMIA, MEIO AMBIENTE, POLÍTICA E PROFETISMO, acontecido entre 19 e 21 de maio.

Falou-se sobre a humanidade, o futuro, as crises no mundo, na América Latina, no Brasil. Michel Löwy, em mensagem lida em plenário, escreveu que “o profeta é alguém que prevê o futuro, chamando para a ação”.

Em painel sobre a conjuntura mundial, Sílvio Caccia Bava, do Instituto Pólis, ABONG e editor do Le Monde Diplomatique, enfatizou a grande desigualdade social existente e crescente no mundo e no Brasil. Segundo ele, a sobrevivência da espécie está em jogo. “Estamos chegando numa situação de luta de todos contra todos, onde a lei do mais forte vigora. A economia dominou a democracia. Estamos perdendo a guerra do mundo das ideias, de um Brasil socialista, solidário. É preciso enfrentar a guerra de ideias. A democracia deve mandar na economia. É preciso superar preconceitos, por exemplo com os evangélicos e começar uma ponte de diálogo com eles, que estão na ponta, na comunidade. Abriu-se agora uma oportunidade, com a mobilização ampla, com as Diretas Já, com o povo na rua.”

Camila Moreno, professora da UFRRJ e membro do Grupo Carta de Belém falou que ecologia e política são uma coisa só, os processos estão interconectados. E falou dos riscos da perda da biodiversidade da perda da camada do solo fértil, da socialidade construída quase apenas através da internet.

“Comungar é tornar-se um perigo:/ viemos pra incomodar”, continua a canção. No painel sobre Política e Profetismo, a pastora metodista Elisabeth Cristina Andrade de Oliveira disse que “o profeta de Deus conhece a realidade onde vive, tem conhecimento do chão onde está pisando, mantém viva a comunhão, viva a esperança, acredita na ressureição”.

A pastora luterana Romi Bencke, Secretária do CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), ressaltou a igualdade e a liberdade bíblicas (Gal 3, 5-8). “Fé nenhuma aprisiona e nos diferencia. A fé sempre iguala e liberta. Como viver a igualdade e a liberdade nos tempos atuais, quando a democracia que vale é a democracia do mercado e a liberdade é a que o mercado oferece? A própria religião acaba sendo capturada pela lógica do mercado. É preciso recuperar o sentido da política. A fé não é em Jesus Cristo, mas a fé de Jesus Cristo.”

Daniel Seidel, da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, se perguntou: “É possível democracia com tamanha desigualdade social?” E apresentou a política e a profecia sob o olhar da encíclica Laudato Sì, do Papa Francisco. Mostrou os sinais de esperança existentes hoje na fé e na política, a Igreja em Saída como caminho e a contribuição do Movimento Fé e Política.

Na síntese dos trabalhos de grupo, Pedro Ribeiro de Oliveira disse que o Bem Viver é nossa arma ideológica na guerra de ideias, seja sob o nome de socialismo, cidadania, Direitos Humanos, Ubuntu, Terra Sem Males ou ecossocialismo. “É preciso ir às bases, conscientizar, encantar e encantar-se, especialmente às juventudes. A economia não pode ser separada da sociedade. É preciso pensar a economia como parte da sociedade. A ideia do Bem Viver obriga a reconstruir a economia.”

“O poder tem raízes na areia./ O tempo o faz cair”, diz a canção profeticamente. E continua: “União é a rocha que o povo usou pra construir./ Toda luta verá o seu dia nascer da escuridão./ Ensaiamos a festa e a alegria fazendo comunhão.” O Bem Viver orienta a construção de um mundo e uma sociedade novas. É preciso aprofundar a democracia para manter e conquistar direitos, na denúncia e anúncio proféticos. A fé anima a política com valores, caridade, paz e utopia. A política leva a fé à ação pela justiça, solidariedade e a uma sociedade do Bem Viver.

Para dar concretude e sinal profético às reflexões, foi aprovada uma Moção de Apoio, que diz o seguinte: “Rio de Janeiro, 21 de maio de 2017, nós do Movimento Fé e Política, reunidos com 73 participantes de 15 Estados e de 5 igrejas cristãs, aprovamos moção de apoio aos movimentos que estão nas ruas estes dias. Unimo-nos a estes irmãos e irmãs e também levantamos nossa voz, exigindo FORA TEMER, DIRETAS JÁ, e contra as reformas trabalhista e previdenciária. E dizemos NENHUM DIREITO A MENOS. Movimento Nacional Fé e Política.”

Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Membro da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política
Em vinte e seis de maio de dois mil e dezessete

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