Análise de conjuntura

por Pedro A. Ribeiro de Oliveira [1]
Juiz de Fora, 7 de março de 2018

Apresentação

Procurei neste texto abrir o horizonte temporal e espacial antes de chegar à análise da atualidade brasileira, com destaque para o golpe de 2016 e seu aprofundamento atual. São 5 seções: (1) a incidência da espécie humana na Terra, (2) o sistema-mundo e sua crise de longa duração, (3) a crise de direção intelectual e moral, (4), o golpe de 2016 no Brasil e (5) as classes populares diante do golpe. Para concluir, aponto pistas para a ação que hoje vislumbro como viáveis para quem luta por um mundo onde reinem a Justiça, a Paz e a integridade da Casa Comum. Evitei fazer aqui referências bibliográficas, exceto quando indispensáveis à compreensão. 

  1. A incidência da espécie homo sapiens na Terra

O surgimento do homo sapiens deve ter ocorrido entre 200 e 300 mil anos, certamente na África, de onde iniciou-se sua migração para outros continentes entre os anos 100.000 e 20.000 AEC (antes da era comum). Formaram-se pequenas sociedades caçadoras-coletoras onde, segundo a hipótese mais plausível, não havia dominação patriarcal e as famílias podiam ser matri ou patrilineares. A estabilização do clima após a última glaciação (10.000 AEC) favorece a revolução neolítica quando ocorre a domesticação de plantas, animais e mulheres, originando-se então as sociedades agrícolas e pastoris, com seus vilarejos. Por volta de 4.000 AEC constituem-se as primeiras cidades, que exploram a população dos arredores para se abastecerem. A partir das cidades começam a se formar impérios na Ásia, África, Europa e América, geralmente por meio de conquista militar. A constituição do sistema-mundo, a partir da Europa, no “longo século 16”, traz uma inovação: nele a dominação não passa necessariamente pela conquista militar, mas por relações de trocas assimétricas (I. Wallerstein). Aí situa-se a grande colonização europeia, com a conquista da África, da América, da Ásia e da Oceania, e a submissão de seus povos à civilização ocidental-cristã e seu modo de produção e consumo.

A expansão europeia por meio do sistema-mundo regido pelo mercado cada vez mais submetido ao capital dá início ao processo de destruição ambiental, cultural e humana (escravismo colonial) que culminará mais tarde na globalização. Em meados do século 18 a revolução industrial acelera aquele processo destrutivo devido ao uso de energias fósseis, a produção de materiais artificiais e não-recicláveis (como o plástico e o concreto) e os resíduos nucleares. Em 1945 o crescimento econômico torna-se muito grande, até a crise mundial de 1974. A partir de então seu ritmo diminui mas não o crescimento absoluto da produção, hoje consumida por 7,4 bilhões de pessoas. Resultado desse processo: a Terra tem hoje sua 6ª grande extinção de espécies, e, entre os animais de porte, só preserva as espécies domesticadas.

Temos muita dificuldade de perceber os efeitos da ação humana na Terra porque nossa temporalidade não é a dela. Para nós, dois séculos é o tempo que normalmente conseguimos perceber (três gerações antes e três gerações depois da pessoa); para Terra, o tempo se mede em milênios. O que para Terra é ritmo acelerado, para nós parece ser quase estagnação. Por isso temos dificuldade de perceber fenômenos evidentes como:

  • Aumento da área de degelo do Ártico
  • Aumento da desertificação (solos e mar)
  • Aumento do nível dos oceanos
  • Aumento de eventos climáticos extremos
  • Morte de rios
  • Diminuição das áreas de florestas > savanização

Embora especialistas alertem para o risco de aquecimento em espiral devido ao metano liberado pela tundra, o degelo polar e o desmatamento, parecemos não acreditar que o clima que há 12 mil anos é favorável a nossa espécie possa mudar substancialmente. Cabe portanto um alerta drástico: 2020 é a data-limite para se evitar a grande catástrofe climática. Este foi o alerta dado pela conferência do clima, em Paris, em 2016: se até lá não forem cortadas as emissões de carbono na atmosfera, o aquecimento ultrapassará 1,5º C e escapará do controle humano. O problema é que até agora as emissões não foram cortadas… As grandes corporações transnacionais e governantes irresponsáveis como Trump e Temer estão a pavimentar o caminho para o advento da catástrofe.

A catástrofe ambiental afetará principalmente as populações mais pobres e vulneráveis, mas é uma boa oportunidade de renovação do capitalismo (“doutrina do choque” – Naomi Klein). Preventivamente, a economia verde é apresentada como solução: a pretexto de evitar o aumento dos danos ambientais pela precificação dos danos (quem causar danos, pagará por eles) ela abre o caminho para a privatização de bens comuns (como a água, o ar e os conhecimentos tradicionais) transformando-os em campos seguros para a aplicação do capital. Por isso termino esta parte citando Agenda latino-americana e mundial 2017, p. 33: “Se simplesmente não fazemos nada – ainda que seja não deixar de falar no assunto – a catástrofe está garantida. Continuar tendo medo em dizê-lo é um erro”.

  1. 2008: a crise de longa duração do sistema-mundo

O item anterior deve ter-nos feito entender que a crise climática não é fenômeno meteorológico, mas resultado do modo de produção e consumo que rege o sistema-mundo. Por essa razão, sua solução só pode vir por outra política econômica (mundial). Vamos focar então o sistema-mundo regido pelo modo de produção capitalista.

Esse modo de produção trata o ambiente como mera fonte de recursos naturais a serem extraídos, transformados, consumidos e descartados como lixo, mas produz enorme quantidade de riqueza, devido aos avanços da tecnociência. Segundo Ladislau Dowbor, se a produção mundial total fosse igualmente repartida, teríamos “cerca de R$ 11 mil de bens e serviços por mês por família de quatro pessoas”. O mesmo valeria para a economia brasileira, que está exatamente na média mundial. A realidade, porém, é de grande concentração de riqueza: 147 grupos controlam 40% do sistema corporativo mundial, sendo 75% deles bancos. Escapam ao controle governamental pelo uso de paraísos fiscais (US$20 tri, dos quais US$520 bi saídos do Brasil) e são os principais financiadores dos organismos internacionais – única instância capaz de controlá-los. Resultado é que a riqueza de 1% dos habitantes da Terra equivale à riqueza dos 99% restantes. Esse sistema, porém, encontra-se em meio a uma crise de grandes proporções.

Tudo indica que chegou ao fim o ciclo de acumulação puxado pelos EUA desde o início do século 19 e que esta é uma nova crise de longa duração. Essas crises são bem conhecidas[2]: caracterizam-se pela financeirização do capital (quando ele se torna mais lucrativo emprestado do que investido na produção) e marcaram a transição do polo capitalista de um país para outro: de Gênova (sec. 15) para Amsterdã (sec. 16-17), depois Londres (sec.18-19), e atualmente Nova Iorque. Há sinais de que neste século 21 o polo vai se transferir para a China, onde o capitalismo poderia retomar seu desenvolvimento baseado na economia verde.

Nesse contexto situa-se a crise de época que analisaremos no item seguinte. Antes, porém, convém destacar dois componentes da atual crise do sistema-mundo: o clima de guerra e o impasse ecológico da economia global.

  • A história das transições no interior do sistema-mundo mostra que elas só se tornam viáveis ao substituir as formas de produção vigentes por novas formas capazes de dar mais vigor ao capital. Assim foi, por exemplo, a criação da bolsa de valores em Amsterdam, a revolução industrial na Inglaterra, e a informática nos EUA. Essas mudanças têm uma etapa de destruição e outra de geração da nova forma de produção. Ora, o modo mais rápido e eficaz de destruir uma antiga forma de produção é a guerra. Hoje temos guerras localizadas, ditas de baixa intensidade porque envolvem pequenas potências mas respaldadas pelas grandes potências. A política externa de Trump só faz aumentar o risco de expansão dessas guerras. O problema é que o advento das armas nucleares multiplica tanto a capacidade destrutiva da guerra que ela ameaça a própria sobrevivência da espécie humana. Hoje há uma nova forma de destruir o inimigo: a guerra de 4ª geração que usa aparelhos de informação, o Judiciário, o Ministério Público e acordos multilaterais (contra as drogas, o terrorismo, a corrupção, ou em defesa de Direitos Humanos ou da Democracia) como armas de destruição. A criação da Agência Nacional de Segurança dos EUA após os atentados de 11/set. 2001 possibilitou o controle das informações que circulam por internet colocando-as a serviço de sua Política Externa. (Denúncias de Snowden e Assange). Assim, o uso da informação (pós-verdade e os fake news) permite a destruição do inimigo sem o emprego das Forças Armadas.
  • O impasse ecológico reside numa evidência incontestável: a economia capitalista do sistema-mundo só produz resultados positivos quando cresce. O problema é que o crescimento econômico atual ultrapassou os limites de reposição da Terra. E ela não cresce. A tecnociência promete encontrar saída, mas até agora tem devorado as matérias-primas do Planeta, transformando-as em objeto de compra e venda, e nada indica que deixará de fazê-lo enquanto não esgotar todos os recursos potenciais (como o petróleo do pré-sal ou do Ártico, as minas da Amazônia ou as fontes hídricas do Cerrado). Diante dessa realidade, toda projeção de futuro torna-se uma grande interrogação porque uma catástrofe climática destruiria não somente o modo de produção e consumo capitalista como grande parte da espécie humana. E a Laudato si’ de Francisco corre o risco de ser voz que clama no deserto…
  1. Crise de direção intelectual e moral.

Crise de época foi a expressão foi usada no documento dos bispos católicos da América Latina e Caribe (Documento de Aparecida, de 2007) para sinalizar a gravidade do momento histórico atual. Ela indica que está por terminar a época histórica na qual a civilização ocidental cristã impôs sua hegemonia ao mundo. De fato, a crise financeira de 2008 sinaliza que neste século o polo dinâmico da economia vai se transferir para a China, onde o capitalismo poderia retomar seu desenvolvimento tendo por base a economia verde. Essa transferência de centro do sistema-mundo para a Ásia – não se pode esquecer a Índia – implica também a perda de hegemonia da civilização europeia de origem greco-romana que se expandiu pelo mundo sob a forma de sistema-mundo. A Europa – acrescida dos EUA, o “extremo Ocidente” – e sua cultura, baseada na razão, na tecnociência, no cristianismo, mas também no patriarcado, no colonialismo e no capitalismo, dá claros sinais de enfraquecimento e de gradativa incapacidade exercer a função de imprimir a direção intelectual e moral do conjunto da população humana. Neste contexto, o pensamento liberal recrudesce e tenta esmagar qualquer pensamento diferente, como se a eliminação da oposição pudesse assegurar sua sobrevivência.

É gigantesca a quantidade de informações hoje difundidas no mundo por meio da internet e outros meios de comunicação de massa, mas porque o excesso de informações resulta em sua anulação, o conhecimento da realidade é, em geral, de péssima qualidade. Embora a produção científica, cada vez mais especializada, desvende os segredos da natureza e da história humana, ela é inacessível ao grande público, que não é capaz de entendê-la e se torna dependente das interpretações oferecidas pela mídia. Incapaz de distinguir informações falsas das verdadeiras, ingenuamente consome fake-news e produtos da propaganda. Por isso fala-se hoje da pós-verdade: diante da diversidade de informações, a pessoa tende a aceitar como verdade o que corrobora sua opinião. A complexidade das modernas sociedades só reforça essa dificuldade de discernir. A experiência do indivíduo – que ignora a complexa teia de relações envolvidas na produção e distribuição dos bens que consome – mostra que tudo que ele necessita encontra-se no mercado e que tendo dinheiro suficiente terá tudo que desejar. É a forma atual de alienação: ignora-se a realidade do funcionamento dos sistemas social, econômico, político e ecológico, mas essa ignorância não faz diferença para a vida cotidiana.

Esse pragmatismo do pensamento, que vê o mercado como algo tão natural quanto a lei da gravidade, representa o triunfo do pensamento liberal que justifica o modo de produção e consumo capitalista. Seus valores – progresso, liberdade individual, competitividade, intocabilidade da propriedade e dos contratos, eficiência etc – dominam o imaginário/ideário ocidental moderno, enquanto valores anticapitalistas como justiça social, socialismo, democracia, igualdade, humanismo e outros são descartados como românticos. Não poucas Igrejas cristãs recolhem-se ao âmbito da vida pessoal, como se nada mais tivessem a dizer desse mundo ordenado pela lógica do capital. E há casos em que a religião se presta até a justificar a desigualdade social invocando teologias fundamentalistas que rejeitam a democracia e atribuem a riqueza à bênção divina, como faz a teologia da prosperidade.

Nesse contexto entende-se a pertinência da afirmação do bilionário estadunidense Warren Buffet: “A luta de classes existe e a minha classe está ganhando”. Agora em situação de vantagem, a classe dos grandes ricos propõe a paz, desde que entendida como fim da resistência dos oprimidos e oprimidas e não como harmonia resultante da justiça. Um poema catalão citado por D. Pedro Casaldáliga bem expressa essa derrota das classes oprimidas no plano das ideias: “Combatentes derrotados de uma causa invencível”.

  1. Brasil: o golpe de 2016.

É preciso situar o golpe de 2016 no Brasil no contexto dessas realidades mais amplas – a Terra, o sistema-mundo e o fim de hegemonia do Ocidente – para entender seu caráter estrutural.

Às grandes corporações mundiais interessa garantir para si as fontes de energia e de matérias-primas de Nossa América a baixo custo, para fazer face à financeirização do capital. Esse interesse associa-se ao objetivo estratégico dos EUA de reforçar sua influência e impedir o avanço da China no Continente. É o que tem sido chamado de neocolonialismo. Embora os governos de Lula e Dilma não fizessem oposição a esses interesses, tampouco se alinhavam automaticamente aos rumos definidos pelos EUA, como mostra sua política externa de abertura ao Sul (o chamado Terceiro Mundo) e a parceria comercial e financeira com a China. Aí reside a razão principal do golpe de 2016, da mesma estirpe dos golpes contra M. Zelaya em Honduras (2009), F. Lugo no Paraguai (2012), e as sucessivas tentativas de tirar N. Maduro na Venezuela. (A Argentina só não sofreu golpe porque a eleição de Macri favoreceu o grande capital).

O processo golpista teve seu início durante as mobilizações sociais de junho de 2013, quando a resposta negativa do governo às demandas populares abriu o caminho para as forças golpistas ocuparem as ruas. É relevante o papel da grande mídia e de ONGs tipo MBL e Vem pra rua que contam com financiamento externo (entre outros, um bilionário brasileiro). A crise econômica artificialmente estimulada em 2014-16 para desestabilizar o governo Dilma, incapacitada de encontrar uma saída resposta eficaz, foi o estopim do processo que culminou com seu impeachment em abril de 2016. Foi então usado o método da guerra de 4ª geração, já referida na seção 2. O golpe veio romper o pacto social consolidado pela Constituição de 1988 e impor o projeto neoliberal das classes dominantes. Vejamos do que se trata.

A desigualdade social no Brasil expressa-se pela concentração da renda e da riqueza. Dados da Receita Federal de 2013 mostram: do total de 26.500.000 declarantes, 208.000 declararam renda igual ou superior a 80 salários-mínimos / mês (= R$75.000 hoje) e 71.500 declararam renda igual ou superior a 160 salários mínimos mês (= R$150.000 hoje). (Isso sem considerar os rendimentos não declarados). Também acentuada é a concentração da riqueza: 1% da população concentra 48% da riqueza nacional e 10% têm 74%. Numa ponta estão 31 bilionários e na outra 8,5 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza (até R$140 mensais). Os seis mais ricos do País possuem juntos riqueza equivalente à da metade mais pobre da população.

Essa classe de 200.000 famílias reproduz hoje o modelo de dominação da casa-grande escravista: usar o poder do Estado para garantir e aumentar sua riqueza, e reprimir quem propõe as reformas estruturais (agrária, do Estado, fiscal e urbana). Seu capital controla as grandes empresas e os meios de comunicação de massa, mas é submissa às metrópoles neocoloniais (empresários a serviço do capital externo). Conta com a cumplicidade de economistas e pensadores (institutos como Casa das Garças e Millenium) e têm forte presença no Judiciário e em postos de poder cujos concursos requerem alto grau de escolaridade. Conta também com intelectuais que assumem ser de direita e que desfrutam de espaço na mídia e redes sociais para preservar o capitalismo de qualquer ataque. Para completar sua hegemonia, essa pequena mas poderosa classe dominante respalda propostas conservadoras no campo da moral sexual e familiar e mantem as isenções fiscais para instituições religiosas, e assim reconquistou a simpatia das Igrejas cristãs, abalada pelas violações cometidas pela ditadura empresarial-militar de 1964-84. Quando essa hegemonia no campo do pensamento e dos valores não é suficiente para lhe dar tranquilidade, a classe dominante tem a polícia e a segurança privada (milícias) para defender seus espaços exclusivos (fazendas, condomínios fechados, alphavilles e resorts).

O golpe uniu diferentes setores da sociedade brasileira: empresários e ruralistas que propunham reformas neoliberais para recuperar ou aumentar a taxa de lucro, políticos profissionais que queriam estancar a Lava-jato e livrar-se de Lula e do PT, setores da pequena burguesia temerosos da ascensão econômica dos pobres, igrejas cristãs em oposição a propostas inovadoras na legislação referente ao aborto, às drogas, políticas de gênero e ensino laico. Na prática, mesmo tendo o Parlamento mais ilegítimo desde 1984, o regime político tornou-se semi-parlamentarista devido à fragilidade do poder executivo: H. Meireles concentra poderes semelhantes aos de primeiro-ministro, com maioria absoluta na Câmara e no Senado. Assim vai-se colocando em prática o projeto “uma ponte para o futuro”, de 2015.

Hoje desmorona a coalizão que possibilitou o golpe e cada setor busca tirar o maior proveito que consegue, mas não aparece quem tenha a respeitabilidade moral exigida para exercer o governo da república. Agrava-se a situação política devido à desmoralização que atinge os três Poderes. Desenha-se então uma intervenção militar como se ela fosse capaz de encontrar saída para a crise das instituições republicanas. A intervenção no Rio de Janeiro é o primeiro passo nesse sentido, embora o projeto das classes dominantes para 2018 seja o de manter as aparências da democracia sem perder o controle do governo e do Estado. O ocorrido em Honduras, onde a cumplicidade entre a justiça eleitoral e a mídia assegurou o triunfo de uma fraude eleitoral, deve servir de exemplo para todos os países de Nossa América: caso haja risco de derrota eleitoral, mudam-se as regras do processo de modo a se elegerem os candidatos das 200.000 famílias ricas.

  1. Brasil: as classes populares diante e após o golpe de 2016.

O golpe pegou a maioria das organizações e movimentos populares – com exceção daqueles que estavam em oposição aos projetos de Lula e Dilma – mais próximos do governo do que do cotidiano popular. Esse efeito do lulismo tornou muito difícil a resistência ao golpe, porque as classes populares pouco se mobilizaram (ao contrário dos setores médios, que sob o comando do MBL, Vem pra rua, FIESP e outros grupos oportunistas foram às ruas para tirar o PT do governo federal). Não tendo percebido a extensão do golpe, os Movimentos e Organizações populares tiveram sua força política desgastada a cada embate perdido para os golpistas. Fragilizadas, até agora elas só impediram a implementação de medidas muito impopulares e a reforma da previdência. Neste contexto, empate tem sabor de vitória…

Mais preocupante é como a Constituição de 1988 tem sido interpretada pelo Poder Judiciário de modo a ser cumprida quando em prol das classes dominantes, mas não quando se trata de preservar direitos de povos originários, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, e seus representantes políticos (as exceções confirmam a regra). A isso se somam os assassinatos e abusos policiais, chacinas (nas periferias urbanas, no campo e de indígenas) configurando-se o terrorismo preventivo de Estado: manter as classes potencialmente ameaçadoras à ordem estabelecida, recolhidas em seu domicílio por medo de serem alvo da violência policial. Apesar disso, emergem hoje várias propostas no sentido de desfazer os danos sociais e políticos causados pelo golpe de 2016 e estabelecer uma ordem justa e democrática. As principais são:

  • Plano popular de emergência, da Frente Brasil Popular,
  • Vamos, da Frente “Povo sem medo”,
  • Referendo revogatório das medidas abusivas posteriores ao impeachment;
  • Eleição livre e democrática de constituinte soberana, para redigir a nova Constituição.

As quatro propostas encaminham soluções concretas para o problema da desordem institucional pós-golpe, mas pode-se perguntar se as forças democráticas já têm condições de derrotar o golpe, que não foi uma simples troca de governo mas sim a retomada do poder absoluto pelos representantes das classes dominantes e subservientes às grandes corporações internacionais. Ele só poderá ser derrubado por um amplo consenso nacional (que foi rompido e nada indica que possa ser refeito, devido ao clima de ódio político que antecedeu ao golpe) ou por uma insurreição popular (que não está no horizonte). Tudo isso nos obriga a prever um longo tempo para criar laços sociais que resultem em força política popular suficiente para instaurar uma ordem justa e democrática.

Conclusão: com os pés no chão, olhar longe

Para quem luta por um mundo onde reinem a Justiça, a Paz e a integridade da Casa Comum esta análise da realidade nacional, considerada em seu contexto planetário e sistêmico, deve descortinar o horizonte para a ação política libertadora. Por isso, concluo apontando os caminhos para essa ação (a conscientização, a organização popular e a formação), novos obstáculos a superar e a necessidade de elaborar-se uma nova compreensão do mundo.

Conscientização: para superar a situação de alienação e descontrole da informação, impõe-se a retomada do trabalho de conscientização popular. O método de Paulo Freire – que une o aprendizado à autoformação da consciência de quem somos, qual nosso lugar no mundo, quem são nossos aliados e quem são nossos adversários e inimigos – é um excelente instrumento para isso. Outro excelente instrumento é a leitura popular da Bíblia, sempre confrontada à realidade vivida pelo grupo. Quem toma gosto pela Palavra de Deus inserida na vida do povo torna-se incansável na luta pela antecipação do Reino de Deus na história humana.

Organização: neste momento histórico em que os donos da riqueza e do poder reforçam sua posição, é necessário reunir quem partilha o mesmo projeto tendo em vista ações conjuntas. Para isso há novas formas de organização, como os coletivos e outros grupos populares autogestionados. É preciso mirar no longo prazo – “outro mundo possível e necessário” – sabendo que vivemos uma conjuntura desfavorável no curto e médio prazo. Por isso, é preciso saber dosar as forças: não jogar tudo nas lutas imediatas, mas fazer delas pontos de apoio para as lutas de longo prazo. Isso é favorecido pela opção por objetivos imediatos bem concretos e que aglutinem o maior número de pessoas como são as lutas pela água, pelo ambiente, pela saúde ou pelo referendo revogatório.

É preciso retomar o método da Formação na ação, que implica a reflexão em grupo sobre a prática do mesmo grupo. É o método ver, julgar e agir ao qual se acrescentou o celebrar.

Novos obstáculos: as transformações do modo de produção e consumo capitalista – fala-se em 4ª revolução industrial, com o advento da inteligência artificial – trouxeram dificuldades antes desconhecidas, como a diluição dos laços sociais oriundos da participação no processo de trabalho, cada vez mais individualizado e controlado pela informática (uberização), e a redução da mobilidade urbana, que torna as famílias e as pessoas mais isoladas em seu espaço doméstico. Outro obstáculo a ser destacado são as redes sociais que em vez de espaço de diálogo e debates se tornaram comunidades virtuais de quem pensa igual.

Nova compreensão do mundo: o pensamento iluminista produzido na Europa do século 18 e desenvolvido nos séculos 19 e 20, foi globalizado mas mostra-se incapaz de fundamentar projetos de construção de uma civilização planetária que substitua a civilização ocidental-moderna. Buscamos hoje um novo paradigma – ou nova base hermenêutica – de pensamento carregado de valores que impulsionem a construção da Paz e da Justiça no mundo. A sabedoria do Bem-Viver (Sumak Kawsay) é um desses pensamentos que hoje vem ganhando espaço entre os Movimentos e Organizações sociais, porque (i) inclui a Terra como sujeito de Direitos, (ii) assume a dimensão espiritual e mística (a capacidade de ver o que está por detrás do perceptível e que energiza o real), (iii) reconhece as diferenças de gênero, étnicas, culturais, de geração e outras ao pensar as condições de existência e (iv) inclui outras espécies além da humana como parceiras na comunidade de vida.

A sabedoria ou utopia do Bem-Viver tem sua origem na experiência de lutas populares contra o capitalismo neoliberal e tem seu fundamento nas raízes culturais dos povos originários da Nossa América, mas não é um retorno ao passado e sim um projeto pós-capitalista. Por isso tem afinidades com o ecossocialismo, a economia solidária e outras propostas de superação do capitalismo. Importante notar que ele brota da prática popular, mas não é espontâneo: exige-se uma elaboração teórica consistente para fundamentar essa prática.

Que neste Ano nacional do Laicato os leigos e leigas sejam verdadeiramente sujeitos eclesiais que escutam “os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, como um lamento que reclama de nós outro rumo” (Laudato si’, 53)!

[1]Leigo católico, nascido em 1943, doutor em sociologia, foi professor nos Programas de Pós-Graduação em Ciência/s da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC-Minas. É membro de Iser-Assessoria, da Equipe de Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação do Movimento Nacional Fé e Política.

[2] ARRIGHI, Giovanni: O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo; Contraponto e UNESP, 1996

Doutor em Sociologia, Professor – hoje aposentado – dos Programas de Pós-Graduação em Ciência(s) da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e da PUC Minas. Membro do ISER-Assessoria.
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