Ampliar e Radicalizar

Ampliar e Radicalizar
Corintianos reunidos na Avenida Paulista durante ato pela democracia no último dia 31 de maio. Foto: Catraca Livre – Pam Santos/Fotos Públicas

Um grande debate dominou o campo de esquerda, popular e democrático brasileiro nos últimos dias. No caso, Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, movimentos sociais e populares, pastorais, movimento sindical e setores organizados da sociedade.

O debate era o seguinte, com graduações nas diferentes posições: ir ou não ir para as ruas, gritando Fora Bolsonaro e Mourão, exigindo a cassação e o impeachment, mas respeitando as regras do isolamento social. Ou gritar Fora Bolsonaro e Mourão de outras formas, sem ir para as ruas. Na opinião dos que eram contra, ir para a rua, neste momento e atuais circunstâncias, poderia significar que não se estava respeitando o isolamento. Os que fossem para a rua sofreriam críticas, seja da grande imprensa, de setores aliados, até dos bolsonaristas, que teriam argumento para sua própria ida às ruas na mobilização a favor de Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, estava na roda e no debate o Movimento #Somos 70%, a assinatura ou não de Manifestos, como o Juntos, ao lado de setores e personalidades que apoiaram o golpe de 2016, que apoiaram ou ainda apoiam a política econômica do governo Bolsonaro e outras políticas do governo genocida, e assim por diante.

O domingo, dia 7, deu a resposta. Houve protestos em todo país, muita gente na rua, os bolsonaristas em menor número, ou até inexistentes em vários lugares, um sucesso a mobilização do Fora Bolsonaro e Mourão.

Minha visão na e da conjuntura, confirmada com as mobilizações nas ruas domingo dia 7, a serem ampliadas dias 13, 14, todos os dias se possível, daqui para frente. Não há conflito. Ou se há em algum nível, é desnecessário.

É preciso ampliar e radicalizar ao mesmo tempo. Como em outros momentos da história, Diretas-Já, por exemplo, ou na mobilização pela Constituinte, nos anos 1980. Num primeiro momento, 1983, só a esquerda e os movimentos sociais estavam na rua. Depois, incorporou-se o campo democrático-popular, mais amplo. Lembro de como, na época, uma Comissão foi chamar o senador Pedro Simon, do PMDB, para estar no comício das Diretas-Já, entre outras figuras públicas, que não queriam afrontar o regime da ditadura militar diretamente.

Ampliar hoje, 2020, como, em que sentido e com quem? Há um exemplo concreto, dos últimos dias. Representantes de emissoras de TV católicas encontraram-se virtualmente com o Presidente da República, prometendo apoio em troca de verbas públicas. Imediatamente, a Comissão de Comunicação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e vários bispos católicos manifestaram-se contra a iniciativa. A CNBB e a maioria da igreja católica, assim como setores de outras igrejas e religiões, devem ser convidados e poderão fazer parte do ‘ampliar’.

Há muitos outros setores não golpistas, democráticos, não bolsonaristas, que devem, precisam ser chamados. Por exemplo, pequeno e médio empresariado, que está sofrendo com as consequências da pandemia e da política econômica ultraneoliberal, assim como profissionais liberais, intelectualidade, setores da classe média, que começam a dar-se conta da gravidade do movimento histórico e da urgência de se posicionarem pelo Fora Bolsonaro e Mourão.

A sociedade e o povo brasileiro estão vendo o debate saúde x economia, como se a saúde fosse secundária, a omissão ou manipulação de dados da pandemia pelo governo federal, transformando o Brasil em pária global, além do ódio e da intolerância reinantes, e cada dia despejadas no colo e na cabeça da sociedade brasileira pelo bolsonarismo, liderados e impulsionados pelo próprio Presidente da República.

As manchetes de 11 de junho, quinta-feira, são trágicas: “Brasil pode se tornar o país com mais mortos em 29 de julho, se nada mudar. O país registrou 8.300 novos óbitos entre 01 e 10 de junho, enquanto os EUA registraram 8.130. Uma projeção matemática feita pela Casa Branca prevê que no final do mês de julho o Brasil pode ultrapassar o número de mortes dos norte-americanos” (Brasil247, 11.06.2020).

O futuro e a esperança maior estão, principalmente, com quem está nas ruas, como em outros movimentos da história brasileira. É a mobilização popular, são as ruas que fazem as coisas acontecer. Mais uma vez, as mulheres e a juventude estão dando o exemplo. Por óbvio, o ir para as ruas deve ser feito com todos os cuidados e exigências sanitárias, em função da pandemia do coronavírus. E tampouco ir para as ruas é contraditório com a presença e disputa política através das redes sociais, que, aliás, devem ser melhor conhecidas, para serem melhor usadas, a favor das boas causas. Portanto, radicalizar nas ruas e fora das ruas.

Ir para as ruas sempre, e em primeiro lugar. Ir para as ruas significa, sim, na conjuntura, radicalizar, afrontar o poder estabelecido, mostrar a cara, dizer que não se tem medo, chamar a população para se somar, juntar multidões. E, como em outros momentos históricos, ir, inclusive, para a desobediência civil, quando não houver outras alternativas.

Não bastam meias palavras, ações pela metade. Como gritou quem foi para a rua domingo dia 7: “Recua, fascista, recua, é o poder popular que está nas ruas. Fascistas, não passarão!”

A gravidade da conjuntura, a pobreza, a miséria e a fome crescentes, que estão levando a importantes e mais que necessárias ações de solidariedade com os mais pobres entre os pobres e com as periferias, as ameaças à democracia, o fascismo querendo se estabelecer, exigem a luta e a mobilização de massas na rua. Estão em jogo a dignidade, a vida e a saúde do povo brasileiro, a democracia, a soberania, o ser Nação.

Por incrível que pareça, a pandemia poderá dar um empurrão decisivo e final para a derrubada de Bolsonaro e Mourão ainda em 2020. A sociedade brasileira cada dia está vendo mais o desastre e dando-se conta do que esperam o Brasil e o povo com este governo.

Ampliar e radicalizar ao mesmo tempo. Ampliar a favor da democracia, pelo Fora Bolsonaro e Mourão, sem deixar de ir para a rua. Radicalizar, sem deixar de buscar apoios para a causa maior, e com desobediência civil.

Ninguém solta a mão de ninguém.

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Selvino Heck – Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990). Em doze de junho de dois mil e vinte