Ameríndia – Comemorar os 50 anos do Concílio Ecumênico de 1962-65

Ameríndia – Comemorar os 50 anos do Concílio Ecumênico de 1962-65

O verbo “comemorar” significa “juntar-se a outras pessoas para fazer a memória” e traz implícito o sentimento de alegria que perpassa esse encontro. E disso se trata: trazer para o tempo atual aquele grande evento de meio século atrás. Habitualmente se identificam os concílios pelo local – e não pela época – de sua realização. Mas no caso desta comemoração é muito mais importante datar o evento do que sua localização na cidade-estado do Vaticano. Neste breve artigo quero destacar seu caráter de mudança de época.

Os anos de 1945 a 1973 ficaram conhecidos como “anos dourados”, porque entre o término da guerra e a primeira crise do petróleo o desenvolvimento das forças produtivas provocou profundas transformações sociais, culturais e políticas em todas as partes do mundo. É nesse contexto que se inscreve a grande reunião do episcopado católico, a pedido dos Papas João XXIII e Paulo VI, para “colocar em dia” a Igreja Católica nesse mundo que iniciava seu processo de globalização. Por mais que a “tradição dos Pios”1 ainda fosse hegemônica entre o clero encastelado nas cúrias eclesiásticas, já era evidente seu anacronismo diante do mundo moderno prestes a entrar na revolução cultural que eclode em 1968. As pesquisas sócio- religiosas apenas confirmavam o que qualquer pessoa atenta aos fatos podia observar: a crescente desafeição dos fiéis pelas normas e doutrinas em vigor na Igreja católica romana.

Foi o abalo institucional provocado pelo caráter ecumênico do concílio que permitiu seu diálogo com a modernidade.

O concílio foi ecumênico não só por reunir bispos de todo o mundo – inclusive estadunidenses incapazes de se expressarem em latim – quanto por seu espírito de abertura a outras Igrejas cristãs. A velha cúria romana, que se via e era vista como indispensável ao Papado – e por conseguinte, à unidade da Igreja universal – de repente se vê ultrapassada pela colegialidade episcopal. A aliança estratégica formada pelos “padres conciliares” em sintonia com o papa derruba a fortaleza da cúria romana e faz avanços notáveis no campo teológico, bíblico, litúrgico e sócio-político. Foi como um arado que desmancha os restos da antiga plantação ao preparar o terreno para nova semeadura. E assim, passados apenas três anos, Sociólogo, professor no Mestrado em Ciências da Religião – PUC-Minas, consultor de ISER-Assessoria, membro da diretoria da SOTER e da coordenação nacional do Movimento Fé e Política.

1 Uso a expressão de J. B. Libanio para referir-se ao catolicismo em vigor desde Pio VI até Pio XII (1775-1958). novos campos estavam semeados e já começavam a frutificar.

As Igrejas da América Latina e Caribe receberam os frutos do Concílio ecumênico não somente para saboreá-los, mas também para deles tirarem novas sementes a serem plantadas em seus campos. Eram tempos difíceis, marcados por ditaduras militares, violações de direitos humanos, resistência armada e, principalmente, o esmagamento dos direitos dos pobres. A assembleia episcopal de Medellín, em 1968, traça as diretrizes pastorais que adaptarão aquelas sementes aos solos de Nossa América. Em pouco tempo elas desabrocham num novo modo de ser Igreja2 que engloba as Comunidades Eclesiais de Base, as Pastorais sociais e as Conferências episcopais; a teologia que lhe serve de fundamento será conhecida por sua proposta de Libertação face às estruturas opressoras em vigor em nossas sociedades; enfim, a explicitação da opção preferencial pelo pobres –presente já na própria convocação do Concílio – vem completar o quadro estrutural desse catolicismo recomposto desde suas fontes neotestamentárias rejuvenecidas pelo Concílio de 1962-65.

Quando tudo indicava que a Igreja católica, renovada desde dentro, partiria em missão no mundo conturbado pela “guerra fria” para proclamar a boa nova da Paz com Justiça, ocorre o inesperado retorno da antiga aliança entre o Papa e a Cúria Romana, enfraquecendo- se a colegialidade episcopal universal e o ecumenismo. Com efeito, apesar de afirmarem sua adesão à teologia consagrada pelo Concílio, os dois últimos papas governaram a Igreja como se lhes bastasse o apoio das congregações romanas. Nesse contexto, as Igrejas particulares que seguem levando em frente as propostas do Concílio se vêem marginalizadas por Roma, como se não fossem, também elas, concretizações legítimas da mesma Igreja católica. É portanto muito oportuno – e muito bom! – promover encontros e reuniões onde se torne presente, ao fazer-se a memória, o evento do Concílio Ecumênico de 1962-65.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira Sociólogo, Professor do Mestrado em Ciências da Religião da PUC-Minas e Colaborador de ISER-Assessoria é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.

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