Esperanças que são sementes

Fala no Painel Entendendo as Crises

Vanúbia Martins de Oliveira
Comissão Pastoral da Terra – Campina Grande/PB

Li em algum lugar, não lembro onde, que “o nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho…”. Parto aqui então do sonho da terra livre e liberta.

Falar sobre Bem Viver, esperança e semente ou semente da esperança em tempos nublados torna-se uma difícil tarefa. Fico pensando no modo de vida que temos, nos rumos tomados pela humanidade…Sempre escutei um “ditado” que diz: “maldito o dente que come a semente” e ao invés de pensar em apenas “um dente”, pensei que talvez hoje o ditado fosse “maldita a comilança que mata a esperança”.

Entendo que, numa sociedade onde o consumismo é a regra, a semente deixa de ter o significado que Deus nos dá sobre ela, “o reino de Deus é como a semente de mostarda…”, “…a semente em terra boa dará fruto a cem por um…”, afinal no centro do jardim está a “arvore da vida”, como bem disse o povo do caminho “e Deus viu que era bom…”e plantou a gente também no jardim. Neste entendimento o grande projeto Divino; é a vida.

Neste momento de Brasil, estamos bem no “olho do furacão” de disputas, que não tem ajudado a construir o Bem Viver, disputas que faz lembrar uma profecia Aymara que diz: “Virá o homem branco e dele serão as riquezas; de você, só a pena”. Neste contexto somos convocados e convocadas a olhar para a vida a partir dos olhos, do corpo, da reza, da festa, da dança, do sentir dos povos andinos onde a terra não é concebida comofator isolado do cosmos, nem das relações dos homens; onde terra não é somente terra mas é território, definida deste modo, em todas as teses sobre os povos Aymara, sobre a teoria do Bem Viver. O Território entendido como o espaço da unidade ecológica de interação de vidas erecursos naturais, é o lugar daunidade de tudo, de casa, homem, mulher, animais,plantas, espíritos, a terra, a água, as rochas e a paisagem. Unidade integral também chamada pelos andinos de Pacha, o tempo e o espaço.

Na verdade, na visão indígena andina e na sua cultura se combinam conceitos e práticas, onde todos os componentes da vida interagem para o Bem Viver, que deixa de ser tese para ser MODO DE VIDA.Tornando-se sujeitos da história, tanto os humanos como todos os elementos da natureza, inclusive os mortos e os espíritos. Nessa simbiose se processa uma outra lógica de ser e de viver; vive-se a partir da plenitude dos laços com a Mãe Terra.

E aqui, nas nossas terras/territórios/, dizemos que semente é memória de “quem se foi”, é herança deixada por parentes, pais, avós. Guardar a diversidade, multiplicar, doar, emprestar, salvar em anos de maior estiagem, são práticas comuns na vida do povo camponês que nos remete a simbiose, a construção de resiliência no Semiárido, organizando em redes de Bancos de Sementes Comunitários, partilhas e trocas de sementes e saberes, vamos, ao nosso modo, vivenciando o princípio do cuidado e do Bem Viver.

É a paixão pela vida e pelas sementes que constrói a “Rede de Sementes da Paixão”, sementes da fartura, da solidariedade, e tantas outras nos estados Semiáridos. São essas redes que vem fazendo um olhar mais coletivo para os desafios que a humanidade tem agora pela frente. Desafio como o modo de produção globalizada em que tudo, absolutamente tudo, é comandado pela ganância especulativa financeira, em um sistema de acumulação global de capitais, por um punhado, pequenininho, de grandes corporações econômico-financeiras e bancos.

Qual a maior produção deste sistema? É só olhar em nossa volta com um pouco mais de atenção e veremos, a produção de muito luxo para alguns e lixo para a maioria, um lixo que advém daartificialização e destruição ambiental. A transformação, por exemplo, de alimento em commodity é uma das estratégias mais cruéis, para manutenção da lógica capitalista. Cruel porque não se consegue viver sem comer, cruel porque privatizando as sementes, privatizam a reprodução de vidas; cruel porque estas privatizações podem levar à escravização da humanidade por uma meia-dúzia de corporações. Mesmo os tratados e os documentosinternacionais mantém como base para o “desenvolvimento” o crescimento econômico e reforça o mesmo modelo industrial e produtivista, negando a importância dos camponeses familiares. Umformato que temconstruído um grave quadro de ameaças sociais e ambientais com mudança climática catastrófica, que tem se apropriado cada vez mais da biodiversidade e dos territórios preservados pelos povos e comunidades tradicionais.

O sistema continua organizando nosso modo de ver, pensar e sentir por meio da propaganda que nos leva a internalizar o consumismo como valor. O camponês tem que deixar de lado o seu modo de vida e produção para se “integrar”. Para se desenvolver se faz necessário entrar na lógica bancária, comprar os “pacotes”. Pacotes estes que negam os conhecimentos das comunidades sobre a terra e o território, sobre as vidas e as resoluções de problemas, negam a construção coletiva da vida nas comunidades. Tudo está atrelado ao consumo, e nós vamos legitimando este modo de vida à medida que também nos sentimos felizes ao consumir, quando não desestimulamos o consumismo, quando não fortalecemos um outro modo de vida a partir de nós mesmos

Nóssomos desafiados e desafiadas a questionar os princípios e valores apregoados, sobre a vida, a liberdade, sobre o ser feliz.O modelo de economia que temos, tem se apropriado dos conceitos construídos pelos movimentos e organizações para se refazer. Com o discurso “politicamente ecológico”,o capitalismo tem colocado sua “finca” nos territórios, criando regras e normas para continuar no controle da produçãopor meio da chamada “economia verde”. Assim surgem as novas tecnologias associadas ao controle das sementes com os transgênicos, práticas que tem reduzido a “agrobiodiversidade” no planeta; o controle da venda, as certificações e leis vão impedindo os camponeses de manter a produção e reprodução da vida.

O mestre camponês Joaquim Santana no seu poema “Indignação do guardião de semente” nos explica como tem sido a luta dos camponeses, sem perder a esperança.

Jesus mestre salvador
Lá do céu está vendo
O que é que estão fazendo
Com o povo agricultor
É tirar o nosso valor

Mandar sementes pra gente
Com veneno é indecente
Deus não vai dar o perdão
É a indignação dos guardiões da semente

No banco a semente está
Para a nossa autonomia
Pra quando chegar o dia
De o agricultor plantar
É só ele ir lá buscar
Voltar feliz e contente
Porque tem em sua frente
As sementes da paixão

Essa é a libertação dos guardiões da semente

Não estou aqui negando as tecnologias necessárias e que ao longo dos tempos facilitou a vida e o trabalho da humanidade, falo sobre valorização de práticas que garantem a vida. Muitas das tecnologias supervalorizadas chegam para artificializar o ambiente, e perdemos em diversidade. Na sociedade do descarte, tecnologias mudam apenas a “casca”, mas o conteúdo é o mesmo e nós a consumimos. Engraçado pensar nisso; onde a indústria tem o domínio desde sempre, muda a casca e mantem o conteúdo (como nos celulares), agora para se apropriar das sementes e da biodiversidade, mantem a “casca” e muda o conteúdo, estratégia de sedução, pois os valores cultivados desde sempre, incluemo amor às sementes, que já não são as mesmas em conteúdo mas permanecem com a mesma aparência, e a aparência é outro engodo do consumismo.

Ainda bem que sempre existiu e sempre existirá a resistência:os povos que RE-existem nos trazem de forma prática várias alternativas mundo a fora. Como bem diz Alder Júlio, precisamos “olhar as águas subterrâneas que se movem”, olhar com carinho e atenção, não só os povos andinos, mas todos os povos da América Latina que vem resistindo a cinco séculos de colonização e destruição, de um capitalismo eurocêntrico.

Desse modo volto meu olhar com carinho e atenção para o paradigma da convivência, construído a muitas mãos e cabeças, mantendo acesa a chama do Bem Viver, do lugar. Por que do lugar? Porque o lugar que escolhemos para viver é a nossa “terra prometida”, e nesta terra prometida o desafio teórico é prático. Juntar os saberes e os fazeres por uma causa, cultivar os“modos de vida do Semiárido”, valorizar e multiplicar essa cultura produtiva, alimentar; a cultura da dança, da festa, do canto,nos mantém vivos e vivas.Uma cultura de domínio popular e alegre, menos industrial, porém de culinária deliciosa. Se assim não fosse, poucos seríamos nestas terras de Caatinga, e somos alguns milhões de dançantes à moda nordestina.

Esses fazeres e saberes partilhados tem nos apontado para o futuro, pois o pilar do Bem Viver é “reconhecer-se como parte da grande comunidade de sujeitos humanos relacionando-se entre si e com a natureza numa relação interdependente”. As sementes da paixão, da fartura, da solidariedade… têm nos proporcionado o prazer de cuidar das vidas, das sementes que são alimento para o corpo, milho, feijão, galinhas e cabras; e também das sementes que são alimento para alma – os saberes e o sentir do povo desta terra.

Podemos assim pensar a SEMENTE como fonte primeira de vida e de prazer – semente, ovo, óvulo, que se transforma e se reproduz. Pensar a ESPERANÇA seria, no meu entender, tudo que possa gerar vida nova numa dança harmoniosa de partilha e amor. A esperança entendida aqui como ponte entre o cuidado e os processos geradores de vida, é por estarmos vivos que cantamos e dançamos ensaiando o “Novo céu e a Nova terra”.

Trago para pensarmos/sentindo, a semente da esperançaregada na partilha, na solidariedade, na Caridade. A esperança nos vem, não desta caridade do “dar esmolas”, mas nos chega como semente da partilha estrutural, do acesso à terra, do acesso à água, da autonomia produtiva; onde os processos que avançam garantam o protagonismo de homens e mulheres, jovens e crianças, atores de um outro mundo possível e sonhado, não se contentando em vivenciar o paraíso noutro mundo, e sim numa terra onde se transcende de forma concreta, nos gritos por liberdade, na luta contra tudo que nos oprime e mata.

A esperança que se recria segundo os princípios do amor, onde dizemos uns aos outros e as outras: eu preciso de você nesta jornada, eu necessito porque o coletivo é grande e as SEMENTES DA ESPERANÇA tem por base o fazer coletivo.

E como somos multiplicadores e multiplicadoras do amor e da comunhão espiritual, findo com uma frase de Rubem Alves:

“Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos
fragmentos de futuro em que a alegria é servida como
sacramento, para que as crianças aprendam que o
mundo pode ser diferente”.


Busquei Inspiração em:
Rubem Alves, O Que é Religião, Primeiros passos 2012.
Laudato Si, Edições Loyola, 2015
COMUNIDADES ANDINAS AYMARAS – Coexistência e Modernização (A Nação Aymara contra a Nação Boliviana), IPPUR/UFRJ, Rio de Janeiro, 2006.
Arquivos da ASA – Articulação do Semiárido.http://www.asabrasil.org.br/

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