A Fé que nos move

“Somos soldados derrotados, mas nossa causa é invencível”. Essa frase de Ernesto Cardenal retomada por D. Pedro Casaldáliga (ou vice-versa) cabe perfeitamente na realidade atual em que, movidas pelo espírito capitalista cujo sucesso se mede pelo lucro, as grandes empresas financeiras estão em guerra contra a Terra e contra os pobres. Conhecida como “guerra de 4ª geração”, ela emprega a informação como arma de destruição em massa. Os meios de comunicação são usados para destruir culturas, ideais, instituições e reputação pessoal de quem se opõe a seus intentos. O golpe do impeachment foi somente um triste capítulo dessa guerra que ainda está longe do final. Quem se colocou em defesa da Terra e dos Pobres sente hoje o sabor amargo da derrota, é verdade, mas nem por isso abandona a sua causa – que acreditamos ser invencível.

Este tempo em que as Igrejas cristãs celebram o advento é o tempo favorável para alimentar a Esperança dos que lutamos pela Justiça e pela Paz. Um texto do monge Marcelo Barros, que desde os primeiros tempos acompanha o Movimento Fé e Política, é inspirador. Reproduzimos aqui alguns de seus trechos.

É bonito ver pessoas que, contra tudo e contra todos os sinais, teimam em esperar o impossível. Elas mesmas não sabem por que esperam e de onde vem esse milagre de sempre esperar. No entanto, a parte mais consciente da humanidade, assim como, nas diversas tradições espirituais, os homens e mulheres que optam por viver a fé são chamados, como diz a carta de Pedro: “a estar sempre prontos a prestar contas das razões de sua esperança” (1 Pd 3, 15).

A esperança, enraizada na fé, não pode se basear em uma mera análise da realidade, por mais importante e útil que esta sempre seja. A esperança teologal se fundamenta na confiança de que, mesmo o sistema mais iníquo e o império mais poderoso do mundo não conseguirão impedir a realização da promessa divina.

O Natal não pode ser para nós apenas a festa ingênua e meio infantil de lembrar o nascimento do menino Jesus. Tem de ser bem mais profunda. A gente recorda o nascimento de Jesus igual a nós em tudo, como pessoa humana, para reacender em nós a esperança de que, através de Jesus, o próprio Deus vem, hoje, em nossas vidas, revelar o seu projeto de amor. De um modo mais profundo, o Advento é um tempo para reavivar em nós a esperança do reino de Deus e para nos dispor à proximidade de sua vinda. Ficar apenas em uma espiritualidade do menino Jesus é ficar aprisionado a uma espécie de regressão psicológica sentimental que nada tem a ver com o projeto divino.

Alguém contou que, na língua alemã, há um modo lindo de afirmar que uma mulher está grávida. Diz-se que ela está “in der Hoffnung”, ou seja, está em esperança. De fato, é a esperança que dilata o útero da humanidade e o torna acolhedor e disponível à nova vida que virá. Não é dessa esperança que fala a canção do Geraldo Vandré quando dizia que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”? Essa esperança é sempre nova. É operativa e transformadora. Antecipa a hora e, como diz Dom Pedro Casaldáliga: “vive a urgência do saber esperar”.

“A noite quase passou e o dia se aproxima… Vivamos honesta e dignamente como em pleno dia” (Rm 13, 13 ss).

Que a celebração do Natal renove nossas forças para, sem ilusões mas cheios de utopia, continuemos na luta em defesa da Mãe-Terra, seus filhos e filhas de tantas espécies, como pede o Bem-Viver.

Responsive image
Responsive image
Responsive image
Responsive image