O Movimento Fé e Política e a crise brasileira

Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Artigo publicado no IHU-notícias no dia 19/07/2016 refere-se ao 10º Encontro Nacional de Fé e Política ao abordar a dificuldade de a esquerda assumir uma posição crítica em relação ao pragmatismo político dos governos Lula e Dilma. Embora os seus autores só tenham tomado por mote a dramatização do episódio da reanimação de Lázaro (Jo, 11: 17-53), quando cada dupla fazia variações sobre a frase “Se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, é certo que o problema existe. Também o painel inicial, dedicado à análise da conjuntura (O cenário que se desenha hoje) e a Nota pública só abordam o problema com muita cautela. (Cfr. http://fepolitica.org.br/category/textos-do-painel-e-grupos-tematicos/. Ao retomar aqui a questão, o faço a título pessoal e não como membro da Coordenação nacional, para esclarecer os propósitos do Movimento Fé e Política e para apontar um encaminhamento para essa reflexão.

Desde o 1º Encontro nacional, em Santo André-SP, em 2000, os Encontros têm dedicado espaço à análise da conjuntura. Isso inclui, evidentemente, a apreciação crítica das experiências petistas de governo municipais, estaduais e federal, embora não se possa falar propriamente de autocrítica porque nem todo participante do Movimento identifica-se com o PT. Como as e os militantes são incentivados a assumir cargo eletivo nos poderes executivo e legislativo, normalmente são evitadas críticas que venham a desanimá-los. Nossa prática tem sido a correção fraterna: falando com jeito, quem discorda de alguma posição ou atitude de outro deve deixar isso claro. Esse modo de agir tem permitido grande pluralismo de posições político-partidárias, desde que sejam respeitados os princípios da Ética e da nossa Carta de Princípios. Esse respeitoso diálogo entre diferentes posições políticas foi fundamental para o êxito dos Encontros durante os governos Lula e Dilma, quando havia membros do Movimento inclusive no núcleo do governo e outros membros em franca oposição pela esquerda.

No 10º Encontro, porém, foi menor essa abertura à crítica, devido ao fato de ter ocorrido na semana em que a Câmara ofereceu o vergonhoso espetáculo da votação favorável ao impeachment da Presidente Dilma. A exibição da politicagem que tem em Eduardo Cunha sua expressão mais acabada, e que infelizmente vai muito além dele e é acobertada por respeitadas figuras da República, criou um clima de tanta tristeza e dor, que não seria justo tocar nas feridas abertas em quem participava ou apoiava o governo comandado pelo PT. Era preciso cuidar da militância sofrida, e foi essa a opção que fizemos naquele momento, com resultados muito positivos. É preciso, agora, esperar as feridas se cicatrizarem para serenamente fazer a apreciação crítica do que foi a experiência do PT à frente do governo federal.

No presente momento, reafirmamos nossa rejeição ao golpe do impeachment por sua ruptura do pacto constitucional de 1988, por reforçar o ajuste fiscal, por enfraquecer as políticas sociais, por atentar contra os direitos dos povos indígenas, por ferir os interesses nacionais e por vários outros motivos. Mas seja ou não triunfante o golpe, deveremos mais tarde refletir seriamente sobre a participação dos cristãos na experiência histórica do PT. De um modo ou de outro, grupos cristãos foram importantes na criação e na consolidação do PT e devemos tirar lições da história para não repeti-la.

Há que se considerar o messianismo próprio à nossa tradição religiosa, pois Cristo é o Messias. Esse viés histórico acarreta a dificuldade de lidar com as conquistas limitadas e provisórias que se pode realizar no interior do sistema capitalista: a promessa do Reinado de Deus na história humana com frequência nos faz desprezar as mediações possíveis em cada momento. Certas pessoas chegam ao extremo de colocar defeito em todas as realizações políticas, não validando qualquer experiência de gestão popular, sem prestar a devida atenção à correlação de forças sociais em conflito. É difícil encontrar o equilíbrio entre opções pragmáticas ou oportunistas, e opções políticas que mirem no horizonte o Reinado de Deus, mas tendo os pés no chão da história, realizem o possível. E sem culpabilizar-se por não alcançar a perfeição.

Há que se considerar, também, as mudanças ocorridas no campo religioso desde 1989, quando foi fundado o Movimento. Ele tornou-se cada vez mais uma rede de grupos, pastorais, projetos e iniciativas locais empreendidas por cristãos na luta pelo Reino de Deus, agora com a efetiva parceria das Escolas de Fé e Política e o Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara. Seus Encontros têm antes o caráter de fóruns de debate e reflexão do que espaço de tomada de posição conjunta frente à conjuntura. Hoje, talvez mais do que no momento de sua fundação, os Encontros nacionais e os grupos de Fé e Política devem ser espaço de partilha, formação e animação da espiritualidade política.

Enfim, diante das dificuldades da crise atual que atinge a todos nós, o Movimento Fé e Política vem desenvolvendo as propostas políticas, econômicas e culturais que têm como eixo a utopia ou sabedoria do Bem Viver. A isso se dedicaram os Grupos Temáticos realizados no 10º Encontro durante toda a tarde de sábado, sendo um momento muito bem avaliado pelos participantes. Ali foi possível avaliar autocriticamente nossa participação enquanto movimentos sociais e pastorais na perda do horizonte utópico, mas também nossa contribuição para as conquistas hoje ameaçadas pelo golpe. Para ir mais longe nessa reflexão, pensamos desde já em realizar um seminário de aprofundamento sobre o tema já em 2017.

Para concluir: percebemos que a crise atual é bem maior do que o golpe do impeachment. Nesta crise mundial de acumulação do capital, são os povos da periferia do sistema os que mais sofrem a opressão. Mas afirmamos que deles vem a proposta do Bem-viver, que poderá salvar a humanidade da catástrofe que se anuncia.

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